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Ainda que tenham puxado meu tapete enquanto eu desfilava pela vida e que eu tenha despencado de cara no chão, tomei uma decisão: não desistir do amor. Jamais. Um sentimento não tem culpa de ser. Quem tem culpa somos nós, seres humanos, que temos mania de distorcer o que é bom apenas para satisfazer nosso desejo sádico da dor. Mas depois da dor, queremos amor. Queremos paz. E sim, continuarei a acreditar no amor. Não por ele. Não por ninguém. Apenas por mim mesma.
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Das pequenices da vida

Ontem.
Meu celular despertou para que eu começasse a minha semana. Uma hora depois do que eu havia planejado, pois dormi mais tarde do que havia planejado. Levantei da cama, olhei para minha irmã dormindo, que está de férias, e meu cérebro gritou para que eu voltasse para a cama. Dorme mais, filha. Vai levantar pra quê? Eu tenho mais o que fazer, sabe, meu filho? Dormir demais nunca me faz bem. E então meu edredom quentinho começou a conversar comigo. Venha, veeeeenha. Olhei bem para a cara daquela cama quentinha, ouvi as vozes que sempre me dizem para não fazer o que eu disse que ia fazer, sorri para elas. Vocês, sempre tão lindas. Resolvi ouvi-las e voltar para a cama. Mas antes, fui ao banheiro. E então fiz tudo ao contrário.
Voltei para o quarto, arrumei a cama, vesti minha roupa e saí para caminhar. Já está tarde pra isso, olha esse sol, pra quê?, elas gritavam. Mas mesmo assim fui. Saí embaixo do sol forte, desse céu que anda mais azul e mais lindo que o normal. Depois de algumas voltas na praça, amarrei meu casaquinho em volta da cintura, nem aí se alguém estava achando brega. Meio que voltei para meus tempos de escola, quando eu costumava amarrar meu moletom na cintura e andava pelos pátios gigantes do colégio, ou então tropeçava na manga que havia se soltado e caía de quatro em frente à quadra dos meninos que estavam jogando futebol. Aí voltei para a praça e, meio cansada de ficar dando voltas, resolvi ir fazer meus alongamentos. Já devo ter andado uns 6km hoje, tá bom. 
Tinha um moço bonito lá, fazendo os seus alongamentos também, e enquanto eu me esticava, quase virei pra trás e falei: olha, moço, você é bonito, mas não tô boa pra essa coisa de paquera, tá? Chega a dar arrepios quando a gente sente olhares sem mesmo olhar para trás. Olha, moço, eu não tô boa. E aí ele saiu para correr. Eu voltei para casa.
À tarde, jogada no sofá da sala, enquanto continuava minha conversa com o tio Keith Richards, comecei a cochilar. Ouvi minha irmã na cozinha e perguntei se ela ia fazer café, ainda meio sem saber se estava totalmente acordada. Eu quero também, faz favor. E então sentamos ali na sala, eu num sofá, minha irmã em outro, cada uma com sua xícara de café quentinho em mãos. Ligamos a TV na Mtv e alguns clipes de rock estavam rolando. Sweet Child O’ Mine. No meio daquelas cenas em preto e branco, tio Axl Rose se balançando daqui para lá, como de costume, e todas aquelas calças de couro pretas. Não resisti e soltei: gente, olha o Axl e a bundinha delícia dele! Minha irmã soltou uma gargalhada delícia. Pior que é. E então éramos adolescentes de novo. De repente éramos aquelas irmãs que, há uns 13 anos, no auge da adolescência, sentavam na frente da TV e discutiam qual era o melhor solo do Slash. 
Não sei se foi a xícara de café. Ou se foi o amor. Ou só a vida. Talvez seja uma combinação de tudo. Não sei. Só sei que a vida ficou mais clara, meus caros. Afinal de contas, o mundo é bão, Sebastião.

Sobre o colorido da vida

Não, a vida nem sempre é bela. E nem tudo são flores. Não mesmo. Eu não entrei numa vibe de só ver o lado bom da vida, que tudo tem um lado positivo. Antes de tudo nessa vida, eu sou realista. E, nos dias de hoje, ser realista nos leva a ser, às vezes, pessimista. Há aqueles dias em que a gente levanta da cama e sente pena da humanidade, sente vontade de criar um mundo próprio, só pra não ver as coisas que nos incomodam, causam nojo e revolta. Porque todo mundo precisa de um descanso. De um tempo. E eu disse descanso, não refúgio. Fugir não dá certo. Se há algo a se resolver, vá lá, encare de frente, por mais feio que seja. Fugir só vai fazer com que tudo volte ainda pior ali na frente. Fantasmas, sejam de que tipo forem, quando ignorados só ganham mais força.
Sempre fui o tipo de pessoa que valoriza a verdade. Por mais doída que ela seja. E bem digo, ela nunca é feia. A verdade é limpa e clara, translúcida, faz com que a gente enxergue além. Muito além. Desde que eu  era pequetita, não adiantava tentar esconder a verdade de mim. Eu sempre tentava ir além, vasculhava nos mínimos detalhes, até chegar onde queria. Ah! Aí está você… meu coração disparava, mas eu seguia. Quando ela vinha coberta de palavras bonitas, ou por trás de sujeiras, puxava tudo que a envolvia. E ali estava a luz. Às vezes bate desespero, socorro, não vou conseguir, certeza que vou morrer. Mas nem assim eu parei. E não paro. Nem pretendo parar. A verdade está sempre ao nosso redor, muitas vezes à nossa frente. E não, ela não cega. O que cega são as vestimentas que colocamos nela. Sejam elas em forma de medos, daquilo que julgamos ser nossas verdades, o que for. O que diferencia aqueles que enxergam daqueles que simplesmente não querem ver, é a coragem de desnudar a verdade. Olhar claramente pra ela.
Passei alguns meses tendo ataques severos de ansiedade, que beiravam o pânico e me acordavam no meio da noite, com meu coração saindo pela boca. E eu não sabia identificar o porquê. Apesar de ter um motivo, sabia que algo além estava por trás, pois tudo era demais, principalmente pra uma pessoa equilibrada como eu. Até que um dia, sem saber, me ofereceram a verdade. E fui. Com o coração disparado e a boca seca, mas fui. E então vieram as cores. Passei vidas com uma névoa que encobria minha visão, que não me deixava enxergar além. Agora eu enxergo. O caminho não está lá, mas eu o vejo. Basta que eu o construa. E o encha de flores. Muitas flores. Porque o colorido da vida, é a gente que faz.
 

Nova(mente)

Senti uma fúria querendo me dominar. Fúria que vinha desde a hora que levantei da cama. Então fui limpar a casa, prestando atenção em meus movimentos para não acabar derrubando ou quebrando alguma coisa. Aí fui tentar fazer um pagamento online, mas quando soltei meu terceiro filho da puta para a página que não me respondia, resolvi levantar a bunda da cadeira e ir até o banco. Eu vou ter de ir aí pessoalmente, né? Filho da puta. A caminhada vai me fazer bem. Me vesti, confirmei com minha mãe onde era a agência mais perto de casa e saí. Meio enfurecida. No caminho larguei uma sacola de roupas pra doar na rua mesmo, alguém vai achar isso e ser feliz. Aí veio o céu azul. Azul profundo, sem nenhuma nuvem. E nem precisei olhar para cima, apenas senti. Como amo o céu nessa época do ano! Enquanto andava, refletia sobre a verdade que se revelou para mim há alguns dias e sentia o sol forte batendo em mim. Olha, eu sei que calor incomoda, dá preguiça, mas eu preciso de sol. Sol me alimenta. Tempo nublado é gostoso, tem lá seu gostinho de romance, mas eu só sei amar o céu aberto. Me desculpem. Nublado me lembra embaçado. E embaçado significa não enxergar bem. Nuvens mais escuras me dão a impressão de que o mundo está escondido, que a gente está tentando se esconder. Toda vez que um céu nublado fica por aí por mais de dois dias, tenho a sensação de que ele está tentando me esconder a vida; porque agora eu vejo, sem dificuldade alguma: a vida é colorida. E florida.

vinteeoito

Há alguns dias venho procurando algum sinal em meu corpo dos meus vinte e oito anos de vida. Olho no espelho, não vejo nada. Não é que eu queira envelhecer, ter rugas agora, apenas quero procurar por algum sinal externo que possa mostrar a mulher que meus vinte e oito anos me pedem que eu seja. Muitos não enxergam, meu corpo magro e rosto de menina enganam. Aliás, enganam até a mim mesma. Mas eu já sou essa mulher. Apenas preciso permitir que ela seja. Permitir que eu possa vivê-la.
Hoje, logo depois de lavar meu rosto agora à noite, olhei brevemente para o espelho e enxerguei algo. Voltei e olhei novamente. Havia uma linha forte embaixo dos meus olhos. Estava ali. Meus olhos estavam marcados, destacados. Cheguei mais perto do espelho e vi. Uma mulher cansada, um pouco triste. Eram olheiras. Raras vezes na vida tive olheiras. E meu cansaço não vem do dia quente de hoje, das caminhadas pela rua com minha mãe em busca de presentes, embaixo de um sol escaldante. Esse cansaço vem de um ano difícil, com poucas perdas, mas perdas grandes.
Talvez meus olhos apenas tenham sentido o peso de muitos choros e angústias dos últimos vinte dias. Talvez seja o cansaço de uma vida inteira. Talvez eu só precise dormir, e acordar amanhã para viver mais um dia. Talvez os choros e as angústias voltem, mas não tenho mais medo. Estou falando com o coração. É daí que vem a força. Do amor.
Vinte e oito vezes: eu posso e vou.