Há muito tempo

Há tempo.
Há muito tempo no meu tempo.
Tempo é relativo.
Ter tempo é só questão de querer.
Tempo é abstrato.
Não existe posse de tempo.
Não tenho tempo para fazer o que quero.
Muito menos para fazer poemas e me preocupar com rimas.

Roubaram meu tempo livre na sexta passada. Logo aquele horário em que me inspirei para escrever coisas bonitas. Ele veio, me chamou e me roubou. O tempo. Hoje eu disponho de tempo livre. Mas queria gastá-lo com outra companhia. Teclados me irritam. Computadores públicos me irritam. Que sejam os do campus, sempre tem um pra dar uma olhadinha no que estou fazendo. Perdeu alguma coisa aqui, querido? Vai lá achar sua mãe. Ela precisa mais de você do que eu.

Há muito tempo não vou pra casa. Minha cidade natal. Quase um mês longe de tudo e de todos. Bom. Muito bom. Lavar roupas, cozinhar, estudar, passar o dia na faculdade, fazer o que devo e não devo muito bem, obrigada.

É, há muita falta de tempo no meu tempo.

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(In)quietação

Acabo de voltar do banheiro. A luz de lá queimou e meu pai colocou um abajur pra quebrar o galho… no meio da escuridão desse mato que nos cerca, aquela luz saindo de dentro da concha apenas deixou o banheiro numa penumbra triste e amarelada. Senti medo num primeiro momento, mas não de algo sobrenatural, e sim de que algum morcego entrasse pela janela que estava aberta; e que é muito alta pra eu fechar. Meu pai já está dormindo e não vou incomodá-lo com isso. Aliás, hoje ele estava mais preocupado do que o normal em me agradar. Estávamos assistindo Caminho das Índias ali na sala e comentei que estava sem sono. Ele disse que depois da novela poderíamos assistir a um filme… concordei. Pouco tempo depois disso ele adormeceu ali mesmo, sentado na cadeira, sem que eu percebesse. A novela acabou e o vi dormindo e disse pra irmos deitar. Não, vamos assistir o filme! Você não tá sem sono? Deixa, pai… me dá seu notebook e fico na internet até que eu tenha sono. Chego no quarto e até minha cama meu pai tinha deixado pronta. E aqui estou digitando estas palavras.
Estou na paz do sítio, ouço apenas grilos e meus dedos digitando este texto. Pra combinar com essa paz, coloco Nick Drake pra tocar bem baixinho. Está tudo numa paz enorme, mas aqui dentro nada está calmo. Minha respiração está acelerada, assim como meu coração. Há algo de errado aqui. E este algo sou eu.
Eu quero e não quero. Posso e não posso. Só sei que devo. E que dói. Sabe, dói ser assim. Eu. Ser eu dói. Às vezes fica difícil respirar, tudo em volta de mim se torna pesado… aquelas toalhas dependuradas, o edredom que me cobre, até o ar que respiro é pesado. Queria saber ser mais leve… a vida é tão leve, por que diabos eu sempre tenho de torná-la tão pesada? Eu tenho medo de voar. Me deram asas… brancas, belas e enormes, do tamanho de meus sonhos; mas é só eu começar a voar um pouco mais alto que logo jogo minha âncora pra me trazer de volta ao chão. O meu medo de me esborrachar e me quebrar inteira é enorme. Meus sonhos são do tamanho do mundo, logo minhas quedas também serão. Ou não. Às vezes eu gosto de pensar que existe alguém aí que vai me lembrar de quem eu realmente sou; e que posso ser o que quero sem medo das quedas e obstáculos em meu caminho. Alguém que vai me pegar, me jogar na parede e me chamar assim, com todas as letras, de… Carolina.

This is tearing me apart
If the sun won’t shine
Forever will never be fine
Underneath the hollow ground
Lies a night time sky
For only a desperate eye

TPM…

de cu é rola.

E um nó se fez em meu peito. Assim mesmo, do nada. Não vi, nem li, nem ouvi nada de emocionante. É um nó daqueles que quando se fazem, pra desfazer só chorando litros. Muitos deles, até desidratar. Mas infelizmente meu orgulho não me deixa ser totalmente mulherzinha. Engulo o choro, digo pra mim mesma que é besteira. Chorar é para os fracos, você tem mais com o que se preocupar.
Sabe, chorar só porque meus hormônios resolvem entrar em ebulição uma vez por mês é pura besteira. Há tantos problemas piores pelo mundo, não é mesmo? Fome, guerras e mais toda essa merda. Não é porque eu me sinto o último ser da face da Terra que eu tenho o direito de sair praguejando por aí. Não é porque aquela minha colega-linda-por-quem-todos-os-homens-babam e esquecem de minha existência que tenho de odiar todas as mulheres lindas do mundo. Desejar que todas morram por alguns segundos, só pra eu saber como é reinar absoluta. Não mesmo.

Pior do que pré, é aquela que se torna pós. Porque tudo vem pior do que já estava. Toda a vontade de chorar só porque eu vi uma flor linda, o céu azul, a lua redonda brilhando e reinando lá no alto… tão linda. Majestosa. Enorme. Tão enorme que chega a me sufocar. E ela caga para o que eu penso. Então eu amo aquela bola que ilumina o céu e caga para o que penso ou sinto. Porque ela está lá, reinando absoluta, e fazendo com que a noite fique linda sem pedir nada em troca.
Tudo vem em dobro. Pior ainda é estar discutindo um trabalho em plena cantina da faculdade, olhar pra cara dele e ter vontade de agarrá-lo ali mesmo. Agarrar e beijar até sugar tudo de bom que tem ali dentro. Toda aquela cultura e finesse. Só pra ver no que dava. E cagar para o que os outros pensassem. Aliás, seria legal mesmo se todos morressem e só nós dois ficássemos ali. Discutindo literatura até eu morrer. Ou ter vontade de matá-lo por ser tão cult e irritantemente charmoso em meio à sua ansiedade.
É chegar ao ponto de ligar pra casa e dizer: “Mãe, posso ir pra casa nesse fim de semana também? Tô carente!” Claro, pra minha mãe eu posso mostrar minha fraqueza. Ela vai rir de mim, mas é minha mãe, então ela pode. É amar em dobro. Olhar pra minha irmã que chegou da França há dois dias, sentir orgulho daquela pentelha e ter vontade de gritar pro mundo o quanto pago pau pra ela. O quanto amo essa capeta. Ter vontade de deitar minha cabeça em seu ombro e ficarmos de mãos dadas contemplando o céu ali, do Topo do Mundo. É amar tanto, mas tanto, que tenho a sensação de que meu peito vai explodir. Não pode caber tanto sentimento aqui dentro. Isso não é normal. Amar assim não deve ser muito saudável. Vai ver é daí que vem aquele nó. Porque amar sufoca, dói. É mesmo um sentimento filho da puta. E a mulher que o pariu com certeza foi uma puta mulher, no melhor dos sentidos.
É cometer um leve erro e me sentir a pior pessoa do universo. Enquanto a outra pessoa já está rindo e nem se lembra mais do que eu falei. Me irritar com uma linha que caiu no meio do quarto. Ter vontade de matar qualquer ser vivo que cruze meu caminho. Torturar formigas. Arquitetar planos de aniquilação em massa. Sentir meu rosto queimar de raiva simplesmente porque alguém olhou pra minha cara. Morra, filho da puta! Nunca viu?
Me tornar tão ácida que chego a sentir minha língua queimar. Junto com meu estômago. E tudo fica quente, até o que não deve. Então tenho vontade de agarrar quem eu não devo. Ou devo e não posso. Ou posso e não quero. Ou quero e ele não quer. Que seja. São todos um bando de incompetentes. Bandiputo. Que seus respectivos paus apodreçam e caiam.

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river

Forever and ever

PS: É, dei uma sumida básica. Final de semestre na faculdade, aquela loucura que todos já conhecem.

Tédio

Acordei às 10h com minha irmã saindo da cama… já que ela – que sempre dorme o dia inteiro nos finais de semana e afins, estava animada, tentei me contagiar pra sair logo da cama e estudar. Mas enrolei. À tarde tem festa, né? Desânimo. Enrolo até quase a hora do almoço, rola um sexo selvagem mental e… nada. Eu tenho que estudar. Almoço, de sobremesa como suspiro até entalar e deito na cama de novo… fico vendo televisão. Assisto “Tudo Que Uma Garota Quer” na TNT… felizinho esse filme. Ótimo pra uma tarde tediosa. Vou lá dentro e encho minha mão de suspiros… como até entalar. Dor de cabeça. Não vou tomar remédio. Meu celular tocou umas 3 vezes e nem vi… dormi, será? Era minha amiga, devia estar querendo saber se eu ia na festa. Eu disse que ia. É, pode me bater, me odiar… deixei de ir na sua festa com o intuito de estudar, mas ao invés disso fiquei vendo filmezinho feliz. Chorei no final dele, aliás. Derrota. Minha cabeça latejou algumas vezes e a dor passou. As horas passam. Passaram.
E agora? Kurt Cobain está cantando para mim…
Even if you have
Even if you need
I don’t mean to stare
We don’t have to breed
We could plant a house
We could build a tree
I don’t even care
We could have all three
Já atualizei aquela merda várias vezes… não sei porque insisto, não vai aparecer nada de emocionante. Abrir o orcute e ficar atualizando a página principal também não ajuda. À espera de um milagre, talvez?

Chew your meat for you
Pass it back and forth
In a passionate kiss
From my mouth to yours
‘Cause I like you

It is now my duty to

Completely drain you…

Tenho e-mail’s gritando lá na minha caixa de entrada, implorando para serem respondidos. Mas nem isso consegui fazer. É simples, cara. Abrir minha caixa de entrada, clicar no e-mail e responder. Mas não consegui. Não é à toa que as pessoas desistem de mim. Aos que ainda acreditam, eu amo vocês… de verdade. Sérião.

Stay awaaaaaaaaaay
God is gaaaaaaaaaay

Vou arder no mármore do inferno. Quem sabe de lá eu consigo escrever algo que preste.

(Re)criando asas

E a minha Nina criou asas… minha , coisa branca, ser mais precioso da face da Terra. Foi morar no Céu dos cães, fazer feliz aos outros que estão por lá. Foram 10 anos de convivência, muitas alegrias, sustos e risadas. Nunca esquecerei a manhã deste 9 de abril, quando recebi aquela ligação, aquele tom de voz: “Carolina? É da clínica veterinária. A Brida infelizmente não resistiu, ela morreu.” Vazio. Pego meu celular e em prantos digo: “Mãe, a Nina morreu, mãe…” Como pode? E agora, qual fuça eu vou apertar? quem vai me perseguir pela casa? me esperar na porta do banheiro? ficar me olhando com aquela carinha de morta de fome e choramingando enquanto eu comia ali no quarto? Ah, dona Brida… nunca vou me esquecer da sua carinha quando me despedi de você naquela madrugada, dizendo: “Ô Nina, você vai dormir aqui hoje…” e você me olhando lá de dentro daquela gaiolinha, abanando seu rabinho e choramingando. Pensei que você fosse resistir, afinal era tanta vida aí dentro… tanta alegria e entusiasmo, mesmo com seu coraçãozinho já não funcionando direito, você não deixava de pular e brincar. Era difícil dizer que você podia estar sentindo alguma coisa tão grave. Mesmo enquanto eu te segurava no meu colo lá na clínica e via sua luta pra conseguir respirar direito, eu tinha esperanças de que ainda ia te ter por aqui conosco por mais alguns anos. Doeu tanto te ver deitada naquela mesa, sem vida, sem responder ao meu carinho… que bela peça você nos pregou.
Mas eu prometo que daqui em diante, vou lembrar de sua força e entusiasmo, e principalmente, desse amor incondicional, sem medidas e preconceitos, sem qualquer tipo de cobrança. Transformarei minhas lágrimas de dor em alegrias e força para reconstituir minhas asas e alcançar meus objetivos.
São quase 5h da manhã. The Final Cut está tocando na minha rádio mental há algumas horas.
Meus ombros estão contraídos há muito tempo e agora me incomodam absurdamente. Deixei minha irmã no aeroporto para sua primeira viagem internacional. Fico tão feliz em vê-la voando e crescendo por aí…
Eu também (re)criei minhas asas, aos poucos vou começando a voar novamente. Às vezes sinto que me deram asas quebradas, que estou voando com remendos, prestes a me esborrachar no chão a qualquer instante. Asas se regeneram, certo? E esse processo de regeneração é longo e dolorido. Estou voando muito baixo, quase no chão… apenas sobrevoando. Sobrevoando minha realidade, voando ainda um pouco abaixo de meus sonhos. Preciso achar a dose certa para descer à minha realidade e conseguir o suficiente para voar junto aos meus sonhos; achar o meu rumo para que o tombo não seja muito grande. Pois não adianta voar alto sem ter pelo menos um dos pés no chão.

will you still hold me tonight?