Onde vivem os monstros

Acordei sem vontade. Aquele típico dia de: não devia ter saído da cama. Mas saí. Saí porque a vida lá fora pulsava e me esperava. Mesmo sem vontade, deixar a vida lá fora seria um desperdício sem tamanho. Desci para o campus ainda com o pescoço duro e as costas doloridas. Ontem tudo doía, e quando cheguei em casa me dei conta de que não tinha um relaxante muscular. Essas dores são aquelas típicas de quem não perde a mania de deixar tudo pesado, de quem carrega o mundo nas costas. Desci no piloto automático. E talvez tenha sido por isso que o relaxante muscular que tomei logo depois do almoço não tenha feito efeito.
Sim, a hora do almoço. Enquanto eu comia, pensava em sumir dali. Voltar pra lugar nenhum. Onde clica pra todo mundo sumir? E meu namorado ria na minha frente, descaradamente, da minha cara. De cu? Por eu não dizer uma palavra sequer? Tive vontade de pegar minha bandeja e jogar tudo em cima dele, comida, bandeja, eu. Aquela raiva. Mas aí vem o amor. Amor quebra qualquer sentimento ruim. E então dei uma resposta torta pra qualquer coisa que ele havia comentado sobre laranja. Ele me olhou e disse: “Eu não tenho nada a ver com a dor no seu pescoço”. E então foi minha vez de rir. Não por ter achado engraçado, mas por não conseguir achar em que momento eu culpei alguém por minhas dores.
Foi aí que me peguei engolindo a comida e o choro, e senti meus olhos se encherem d’água. Olhei em volta, só pra ver se alguém estava me observando e continuei comendo, tentando empurrar todos aqueles sentimentos pra dentro, junto com a comida. Pois muito bem. Posso pedir paciência? Mas apenas a vocês que gostam de mim. Quem não gosta… bom, continuem aí. E vocês não precisam fingir que vão com minha cara por educação, eu tiro esse peso de seus ombros. Sintam-se livres para apenas ignorar minha existência que tanto lhes incomoda, ó meus caros e perfeitos mascarados.
É engraçado todo esse processo de amadurecimento. Estou prestes a completar 28 anos de vida e ainda me vejo cheia de medos. Lutar contra esses monstros tem me deixado exausta. Eles estão por todos os lados e muitas vezes chegam a ganhar formas… monstruosas. Vira e mexe me pego com dificuldades pra dormir, sinto que alguém está aqui, prestes a se materializar e se sentar ao meu lado, só pra encher meu saco. Mandar que calem a boca nem sempre tem adiantado. Outro dia dormi com a luz do banheiro acesa, pois havia alguém aqui que não gostava de luz. Teria eu regredido aos oito anos? Bom mesmo foi o dia em que me peguei olhando embaixo da cama. Foi um gesto automático; e quando me dei conta do que havia acabado de fazer, ri. Tolinha. Não há ninguém aqui, nem haverá. E eu não regredi. Apenas esqueci de que os monstros com os quais lutamos diariamente vivem bem aqui, dentro da gente.

Roll away our stones

Ah! as férias…
Depois que a gente cresce, as férias já não são mais tão divertidas. O problema é todo esse. Eu até esqueço, me divirto aqui e ali, mas logo vem aquela voz infernal gritando na minha cabeça: é isso? Vai ficar na cama até meio dia, sua inútil? Não vai fazer nada aí? Me levanto, limpo o quarto, arrumo a cama. Vez em quando lavo o banheiro. Não é nada disso, minha filha. Vá fazer algo PRODUTIVO. Mas eu não estou conseguindo me concentrar, capeta, satanás, já disse! Mas sabe, conversei bastante com Emily Brontë. E também com Jane Austen. Lindas, cada uma a sua maneira. E, ainda assim, me via tendo que reler um parágrafo inteiro, até uma página inteira, porque minha mente achou que era bonito ir passear pelos meus problemas. Com tanto lugar lindo para ir, viajar naquelas histórias lindas, tristes, românticas, ela foi parar lá nos problemas. Marota. Nem pra me dar uma trégua, nem nas férias.

Pare de ficar aí parada e vá dar um jeito de ganhar dinheiro! Tá, com o quê? Emprego eu não posso, logo que as aulas começarem estarei longe daqui. Estou olhando algumas freelas, mas nada sai. Talvez porque eu nem queira mesmo, E DAÍ? Eu tenho o direito de ter férias assim, descansar, não me preocupar. Nossa, pai, dormi demais hoje. “Mas você tá de férias, filha, tá mais que certa, relaxa! Cê já fez sua parte o ano inteiro, levantando cedo, trabalhando”, é o que sempre ouço. Mas eu NÃO consigo não me cobrar. Não consigo. Juro que tento, mas é muito forte. É como se algo aqui dentro gritasse o tempo inteiro que estou perdendo algo imperdível aí fora. O mundo está aí pulsante, corra pra lá e vá viver. Ah! já desvendei o mistério. É isso! Correr livre, subir em árvores, fazer guerra com balões e arminhas d’água, sentar em alguma praça longe de tudo e simplesmente olhar pro céu, sem compromisso de hora pra voltar. É isso, então? Vou ligar para meus amigos. Nem que seja para sentar na sala da casa deles e rir de nada. Quem topa?

Quem topa ir comigo tentar achar aquele botãozinho que apertaram para desligar minha felicidade e leveza de infância? Achar também quem apertou? BANDIPUTO. Será que fui eu? Como faço para religar tudo? Quem topa? tirar essa pedra daqui? correr atrás da leveza que o meu ser adulto roubou de mim, de todos nós?

 

Roll away your stone, I’ll roll away mine
Together we can see what we will find
Don’t leave me alone at this time,
For I’m afraid of what I will discover inside
 
Cause you told me that I would find a hole,
Within the fragile substance of my soul
And I have filled this void with things unreal,
And all the while my character it steals
 
Darkness is a harsh term don’t you think?
And yet it dominates the things I see
 
It seems that all my bridges have been burned,
You say that’s exactly how this grace thing works
It’s not the long walk home that will change this heart,
But the welcome I receive at the restart
 
Stars hide your fires,
These here are my desires
And I will give them up to you this time around
And so, I’ll be found with my steak stuck in this ground
Marking the territory of this newly impassioned soul
 
But you, you’ve gone too far this time
You have neither reason nor rhyme
With which to take this soul that is so rightfully mine

Why so serious-ah?

Mas que marota você, dona vida! Tirando mais uma com a minha cara, bonita.
Ela está lá, toda pomposa e cheia de si, viva, pulsante, gritante, irritante… ante, ante. Tão ante que anda me passando belas rasteiras. Tropeço aqui e ali, saio catando cavaco, mas não caio… só que agora. Agora estou sem forças. Atenta. Mais atenta do que nunca, mas sinto que me falta. Muito. Muita. Tudo em mim é intenso. Não quero mais. Outro dia fui pro campus, mas não consegui entrar na sala para assistir aula à noite. Não tive forças. Fui lá na porta. Voltei. Vaguei. Pensei. Respondi. E pensei. Recebi uma proposta. Considerei. Mas estou sem forças. Não quero desistir de nada. Não posso aguentar tudo. Não dá. Não posso. Não consigo. Só acho. Consigo. Aí fico doente. Gripe. Sem forças. Estomatite ou algo do tipo, que tem me rendido belas dores estomacais. Estou tendo que me privar das minhas Coca-colas diárias. E do meu querido espresso. Fico aguardando um ataque de pânico. A qualquer momento. Minuto. Segundo. Adulta. Eu sou. Gente grande. Ser cansa… gente grande. É sem graça, dizem as crianças cheias de graça. E têm razão. Adultos são chatos, complexos, criam problemas onde não existe nenhum. É. Momentos de reflexão podem ser chatos. Não curto muito essa coisa de auto-análise. Como se eu já não me conhecesse bem o suficiente, ainda invento de ficar analisando. Vou lá embaixo, cavo bem fundo para chegar em minha essência. Essa essência de ser sentindo demasiadamente. Trago minhas primeiras lembranças à tona… infância. É feliz ser criança. Fui feliz como uma. Mas que merda! Não aguento mais escrever sobre eu. Sinto. Penso. Vejo. Vivo. Respiro. Grandes bosta. Como se isso fosse algo de mais. Não é. Somos nada. Vai ver é por isso que sinto tanto. Estomatite. Ou gastrite. Alguma ite qualquer. Me rendeu umas manchas e machucados no canto da boca durante uma semana. Pomadas e mais pomadas até sair tudo. E enquanto não saía, toda vez que me olhava no espelho e via aquelas coisas vermelhas, como uma extensão não desejada de minha boca, só dizia apenas uma frase para mim mesma:

Why so serious-ah?

 

Tesão Putamente Maluco

Dei a esse texto o título mais estapafúrdio que meio veio à cabeça. Estava cansada de todos que já vi por aí. E veja bem, o tesão a que me refiro não é necessariamente o sexual. Não. Sabe tesão por comida? Ou por trabalho? Ou música? Ou qualquer coisa que te faça sentir bem. Então.
Hoje eu acordei meio cansada depois de sonhar que estapeava meu Bolinha, vulgo, afilhado-preferido-gigante-maior-que-eu (que me derrubaria facilmente com um soco), e que depois saía correndo desgovernada pelas ruas do bairro dele. Oi. Fui almoçar com minha irmã e já eram quase 16h. Estava na cozinha e enquanto colocava a comida no prato, cantei feliz: screams of no re-ply-y-y… ainda não satisfeita, afinei minha voz e cantei mais alto: THEY DIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIED. Minha querida irmã me olhou com um sorriso maroto no rosto: QUÊ ISSO?!? Pronto, não posso nem mais cantar. E aí eu ri e respondi: é a Kings and Queens*. Pois é. Ultimamente eu ando respirando Aerosmith. Exalando as músicas deles por todos os meus poros. Principalmente essas mais antigas.
Abri meu MSN mais cedo e tive uma vontade súbida de clicar em qualquer nome e dizer bem enfaticamente, com letras em caixa alta: TE AMO. Assim, simplesmente. Depois que parei pra ver quem estava ali, online, fiquei rindo sozinha. O máximo que iria ouvir seria um tá louca? Ou um vai tomar no cu, de algum amigo querido. Ou quem sabe uma proposta de casamento. Vai saber. Bebi uma Coca-cola de 350ml e mal senti o gosto dela. Não saboreei, sabe? Já comi até mandar parar e ainda sinto fome… já amei loucamente tudo que existe no mundo e depois odiei tudo, com a mesma intensidade. Reli, pela milésima vez, um e-mail totalmente desnecessário e quando estava na segunda linha, a única coisa que eu queria era gritar: VAIDARSEUCU, SUAARROMBADAMALCOMIDA. E então caí na gargalhada.
Daí que a essa altura vocês já devem ter percebido que eu tô na TPM. Grandes bosta. Eu e mais algumas milhões, quiçá um bilhão, de mulheres no mundo inteiro neste momento. Mas sabe, dá licença porque a TPM é minha e eu faço dela o que bem entender. Tem muita mulher por aí que está matando, torturando, querendo dar pro primeiro homem que aparecer na sua frente, arrancando os cabelos com as próprias mãos, se achando gorda e horrorosa, atacando seu namorado porque ele simplesmente existe, porque ela existe, chorando enquanto vê a mocinha da Malhação sofrer por seu amor não correspondido…; e para justificar tudo isso, usando a maldita como desculpa. E eu só estou aqui, escrevendo mais um texto. Reflitam. Mesmo que eu já tenha editado essa bagaça, no mínimo, umas cinco vezes. E lido e relido pra ver se ficou como quero. E não ficou.

* Já mencionei a Kings and Queens aqui algumas vezes, então, quer estiver interessado em ouvi-la, pode clicar aqui. Tem letra e tudo bonitinho pra acompanhar. Foi o tio Tyler quem escreveu lá no meio dos anos 70 (: E, na minha humilde opinião, é uma das “baladas” mais fodas do Aerosmith.

Tô boa não!

Caí da cadeira ontem. Me estiquei pro lado pra pegar não sei o quê e lá fui eu. Não, na verdade eu não caí sozinha, fiz questão de carregar a cadeira comigo. Só pra eu me estatelar no chão com alguma coisa. Fiquei me observando caída aqui, com as pernas pra cima e agarrada na cadeira. A cena era cômica, mas não senti a menor vontade de rir. Doeu. Fiquei um tempo pensando se levantava de uma vez ou esperava parar de doer. Sabe, eu não sou dessas distraídas, que vivem caindo e tropeçando por aí. Gosto de manter meu equilíbrio. Mas parece que, há alguns dias, ele resolveu ir passear em outras redondezas. Não sei quando volta. Poderia ter feito a gentileza de ao menos deixar um bilhete. Certas coisas precisam ser avisadas. Falta de educação, meu querido.
Hoje acordei e meu corpo pesava umas três toneladas. Doía as dores do tombo de ontem. É, caí da cadeira ontem e só senti as dores de verdade hoje. Essas e mais outras. Falta de energia. Dormi até meio-dia, mas esqueceram de recarregar minhas baterias. Tô morta. De morte morrida e matada. Tentei cochilar durante a tarde, mas meus pensamentos não deixaram. Tudo em mim pesa. Coloquei meu Moleskine aqui em frente, pra folhear algumas páginas e colocar uns sentimentos bonitos de lá pra cá, mas ele ainda permanece imóvel… com toda sua pequeneza e imponência de versão de bolso. Tem tanto de mim ali dentro! Uma quantidade que não condiz com seu tamanho. E quem disse que o que é pequeno tem pouco? Take the world upon your shooooouldeeeers. Eu sei. Eu e essa minha mania. Não grite, Daniel Johns. Tentei esticar minha perna, mas tudo doeu. Até meu cóccix. Palavra pequena, consoantes demais. Agora doeu até o topo aqui das minhas costas. Hoje, no final do dia, vesti minha blusa de formatura do Ensino Fundamental. Sim, meus caros marconinos, a minha ainda existe. Azul com um ET skatista, dizendo “Nós trouxemos de Marte a fórmula para alcançar o 2º grau”. 98. Ano feliz. Lembranças daquela época me fizeram rir sozinha. Tive vontade de fazer tudo e acabei fazendo nada. Não sei. Só sei que boa, eu não tô!