certo

estou aqui sentada no sofá já há um tempo, com a bunda meio doendo por causa da espuma que já não está lá mais aquela coisa. dura. estou aqui sentada, lendo e às vezes olhando pra TV, sem enxergar bem o que está lá. minha intenção nem era escrever. aliás, não tinha intenção nenhuma quando liguei o notebook e comecei a navegar por palavras e imagens. minha bunda dói, uma banda dela bem mais que a outra. quero fazer xixi, mas minha irmã está no banheiro há mais de uma hora. aliás, hoje é dia do irmão. tenho a impressão de que essa data é nova pra mim, apesar de ter uma vaga lembrança disso ter acontecido antes. aliás, tive um dèjá vu bizarro hoje dentro do banheiro do shopping, tinha certeza de que já tinha vivido tudo ali antes, todas aquelas emoções, com aquelas mesmas roupas, com aquela mesma bolsa, naquele mesmo banheiro. até a leve vertigem eu já tinha sentido. ali mesmo. e agora a pouco, lendo algumas outras emoções de outros, houve algo sobre meu coração pulando na tela do computador depois de ler uma notícia boa, delícia.
eu não sei o que sinto agora, talvez seja paz, talvez seja nada, eu não sei nem sobre o que escrevo, mas de repente tudo parece estar certo, exatamente do jeito que deve ser. o mundo, neste momento, está todo certo, minha cara.
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Escuridão

Estava tudo escuro. Eu estava deitada de barriga pra cima. Solto um gritinho baixo e bato com as duas maõs no lençol que estava sobre a minha cabeça. Escuro.
– Carol?
Me mexo na cama e vejo que acordei. Estou calma.
– Carol, o que aconteceu?
Não faço ideia. Não sei se foi um pesadelo ou sei lá; foi o que respondi ainda entorpecida pelo sono, sem entender muito bem o que aconteceu.
– Foi pesadelo sim, certeza. Você tá bem?
Tô sim. Estou calma; acendo a luz do abajur pra me orientar melhor. Estou no sítio e ainda estamos no meio da madrugada. Desligo a luz e o quarto é tomado outra vez pela escuridão total. Aquela do tipo que só acontece no sítio: nos primeiros segundos você não enxerga um palmo na frente do nariz, e logo depois já enxerga a forma das coisas. Deito minha cabeça no travesseiro e sinto minhas pálpebras pesadas pelo sono que quase me domina novamente. Foi então que uma sensação estranha começou a me dominar. Comecei a suar, mas era o calor. Empurrei o edredom e fiquei só com o lençol. A sensação ficou mais intensa. Eu tentava me lembrar o que poderia ter me assustado ao ponto de me fazer ter aquela reação, mas tudo que eu me lembrava era a escuridão total. Meu coração disparou. Eu estava com medo. Não queria mais me lembrar do pesadelo. Bloqueei qualquer tipo de pensamento que pudesse me fazer lembrar. Foi uma luta ferrenha. Eu sentia que várias cenas ruins tentavam dominar minha mente, mas eu lutava contra todas elas. Acendi o abajur novamente. Olhei em volta. Nada.
– Você vai ler?
Não, vou ali no banheiro. Levanto, pego uma toalha e coloco em cima do abajur, tampando a luz que batia diretamente no rosto da minha irmã. Saio do quarto apreensiva, vejo que a porta do quarto do papai está fechada; a do outro quarto logo em frente estava aberta, mas não consegui enxergar direito o que estava lá dentro. A única luz acesa na casa, fora a do abajur, era aquela em cima da pia da cozinha. Mal iluminava esta e a sala, quanto mais aquele quarto. Penso em fechar a porta, mas sigo logo para o banheiro. Empurro a porta que estava entreaberta e acendo logo a luz. Não havia nada extraordinário ali. Fiz meu xixi e voltei logo pro quarto. No caminho curto do corredor, fiquei atenta a qualquer coisa diferente que poderia aparecer ali, na minha frente. Entrei no quarto novamente e me deitei. Quando esbocei um movimento para apagar o abajur, aquela sensação voltou avassaladora. Era mesmo medo? Agonia. Deixei o abajur aceso. Vi que minha irmã estava deitada virada para a parede, e então resolvi ficar deitada naquela posição. Era bom saber que tinha mais alguém ali comigo. Mas a sensação veio novamente me atormentar. Eu sabia que havia algo de errado ali, mas não via nada. E preferi não olhar em volta. Meu medo cresceu assustadoramente. Tive vontade de me levantar e me deitar ao lado da minha irmã, segurar suas mãos. Fechei os olhos e pedi que tudo aquilo, fosse o que fosse, parasse. Fosse embora e me deixasse em paz. Não adiantou. Eu sentia que algo ruim queria se tornar claro, mas não deixava que isso acontecesse. De maneira alguma. Vai que eu vejo algo que não quero. Que nem preciso ver. Sinto que o medo está quase me dominando, mas continuo lutando. Tenho uma vontade enorme de me levantar e ir correndo pro quarto do meu pai. Me sinto como uma menininha perdida, fugindo de coisas que não pode ver. Que não estão ali. Que coisa mais estúpida, Carolina! Não tem nada aqui! Continuo deitada, mas aqueles pensamentos e aquelas coisas todas ainda estão ali, bem em cima de mim. Sem mexer minha cabeça, fecho os olhos novamente, e começo a rezar. Junto minhas mãos, assim como fazia para rezar quando pequena, e peço para que tudo vá embora. Que eu tenha sonhos belos e leves. Então sinto alívio. O medo se foi. Talvez uma leve apreensão ainda permaneça. Abro os olhos, sinto que eles estão pesados e ardendo por causa do sono. Olho mais uma vez para minha irmã e vejo que ela já adormeceu. Fecho meus olhos. Acordo algumas horas depois; já estava claro. Podia perceber pelos poucos raios de luz que entravam pela janela. Ainda era cedo. Apaguei o abajur e voltei a dormir. Acordei com meu pai dizendo que já eram 11h da manhã. Não me lembrava do que tinha sonhado. Nem do pesadelo, nem depois disso. E isso acontece rarissimamente. Sempre me lembro de detalhes, ou fragmentos que sejam. Mas então me lembro que costumo deletar coisas ruins. Ou pesadas demais.

Texto bem grande, eu sei. Escrevi sem parar no meu Moleskine ontem à noite, até minha mão doer. Só sei que uma sensação estranha passou por mim enquanto escrevia sobre isso. Na verdade, ainda há uma certa angústia aqui dentro. Talvez tudo isso seja porque dormi duas noites sem sonhos. Para mim, que tenho sonhos bem lúcidos quase sempre, noites sem sonhos são vazias. Como se não existissem. E sequer houveram fragmentos de sonhos. Só escuridão.

Dain bramage*

… ou algo do tipo.
Daí que eu não sei sobre o que escrever. E então muitos dirão: desde quando precisamos de um motivo pra escrever? Que seja. Vontade eu tenho, mas me falta o assunto. Aliás, por que diabos estou escrevendo? Não sei. Só escrevendo para saber. Ou não.
Férias? Sim, graças ao bom Deus elas chegaram! Mas acabaram de chegar aqui, então não vou dizer nada sobre elas por enquanto. Apenas que quero que elas sejam produtivas. Ponto. Vida acadêmica? É, legal. Esse semestre foi um porre, fiz cadeiras chatas demais, bla bla bla. Tudo bem, em uma matéria ou outra eu até fui feliz em certas horas. E a vida? É, a vida. É bem isso aí. Nada de mais, eu tenho uma vida simples, comum, com algumas emoções aqui e ali, mas nada que mereça um prêmio pela aventura do ano. Ou do século. Mas isso não me preocupa. As emoções que vivo me são suficientes no momento. Emoções estas que muitas vezes me deixam tão excitada quanto estar dependurada em um penhasco, tentando atravessá-lo. Sentimentos são assustadores quando querem. Mas eu sempre sei que vou chegar salva lá do outro lado. Eu sempre chego. Se estarei sã, eu já não posso garantir.

Esse lance de sentir é bastante complicado. E simples. Aliás, é tão simples que fica complicado. Porque eu estou lá, quietinha, alcoolizada, daí vem aquela blusa roxa. Tão linda! É um roxo-quase-lilás, um tom perfeito, sinto vontade de chorar só de lembrar… daquele sorriso acompanhado da blusa roxa. Os dentes brancos em contraste com o quase-lilás. Do perfume e abraços, beijos, risadas, sorrisos e beijos. Naquele dia, àquela altura do campeonato, eu nem reparava nas pessoas. A não ser na caneca de cerveja em minha mão, que se esvaziava e se enchia assim, simplesmente. E aí veio o recheio da blusa roxa. É comestível? Depende do ponto de vista. Saboroso é. Se é. Depois daquilo tudo e uns meses, o nó no estômago. Cara, essa doeu! Vomitei toda a verdade para você alguns dias depois e fiquei mais leve. Você ficou mais leve. Esse lance de que a verdade vos libertará deve ser mesmo verdade. É, bem verdade. E ter aquilo tudo de novo neste último fim de semana foi, de certa maneira, libertador. Não, confortante. Você bem sabe. Ou não.

*trocadalho do carilho com o nome da música Brain Damage, do meu tão-amado-idolatrado-salve-salve Pink Floyd.

Aquele abraço

Distraída em meio aos meus pensamentos, ainda meio perdida e com sono, virei meus olhos e me assustei. Nem estava pensando em você.
Oh, só fui te ver agora…
ganhei um abraço tão forte que até perdi o rumo. Um abraço que nem precisei ir buscar.
Fiquei leve, levinha.
E sabe, não me importo que você roube meu rumo assim novamente… no meio dessa perdição eu acabo me encontrando. Encontro tanto que tenho vontade de me perder de novo. Só pra você me achar, me abraçar e eu poder me esquecer por aí.
Me perder em você me faz bem e eu sou tão eu que quase não me reconheço.

E cá estou eu toda amor. Toda abraço. Toda eu.

Aquele perfume, o seu

Cheguei em casa ontem à tarde depois da faculdade, entrei no quarto e senti um perfume forte. De homem, certeza. Apesar de ser bom, aquele cheiro forte me irritou. Deve ser do namorado de uma das minhas roomies, pensei. Elas haviam viajado, e te fiz aquele convite.
Pensei várias vezes em te oferecer um jantar, mas com macarrão, arroz e ovo não poderia fazer nada de especial. Então relaxei. Trilha sonora? Só se fosse a do meu iPod. Mas pra quê música? Não ia fazer diferença. Ainda mais eu sendo seletiva como sou. Ia querer ficar pulando para as músicas que poderiam ser perfeitas. Não. Melhor deixar só a televisão com a imagem chuviscada. Viver a Vida. E depois alguma coisa d’A Grande Família. Sei lá, televisão sempre acaba me incomodando, melhor desligar.

Seu sorriso, piadinhas e beijos ficaram marcados aqui dentro. Principalmente o seu perfume. Acordei hoje, tomei banho, troquei de roupa… seu cheiro. Passei meu hidratante, meu perfume, mas era o seu que eu sentia. Vim para BH, almocei, suei, fui ao banco, suei, ouvi música por algumas horinhas ali no quarto… e suei. Tempo abafado esse. Sentei aqui na frente do computador, tirei meu moleton… e de novo o seu perfume. Sei que não vai adiantar eu tomar outro banho, vou acabar achando outra coisa com o seu perfume. Melhor nem perder meu tempo tentando tirar algo que não vai sair daqui.
Sabe, não é que eu não goste disso tudo. Muito pelo contrário. Já fiz muito mais do que esperava. Aliás, não esperava nada. Você. Naquele dia, no meio daquelas pessoas bêbadas, chão escorregadio por causa da cerveja que insistiam em derramar; você veio falar comigo. Como é que eu nunca te vi por aí antes?, você perguntou. Uai, eu estou sempre por aí. Tive vontade de dizer também que as pessoas têm mania de não me enxergar, ou que muitas vezes eu tenho o dom de ser invisível, mas achei que poderia soar muito… sei lá, emo.
Can you feel me? Feel me breathing? Dave Grohl canta e grita muito por mim. Não vou fugir do assunto. É que eu me assustei. Você todo e esse perfume. É medo de dar errado, eu estragar tudo. Ou você. Mas vai passar. Perfumes vêm e vão. Só gostaria que o seu continuasse voltando, até eu me sufocar. One last breath before I close my eyes…