Self image 2016

Self image: one’s concept of oneself

Gostaria que isso tivesse saído lá em janeiro, mas não foi. Nem importa tanto, porque também não fui. Completei 32 anos de vida há dois meses, voltei da realização do meu maior sonho há nove meses só para me ver nos vários pedacinhos em que me quebrei há mais de três anos e não saber o que fazer para me reconstruir. Continuo com dificuldade em estabelecer metas e agir, a diferença é que agora aceitei que não sou uma pessoa de meta. Tenho metas. Várias. Sou perdida mesmo, não me encaixo nesse modo de vida que a sociedade insiste em dizer ser o certo, o mercado de trabalho me causa ataques agudos de ansiedade e só sei cantar que society, you’re a crazy breed, I hope you’re not angry if I disagree, I hope you’re not lonely without me. Virei uma manteiga derretida e me pego chorando com propagandas, textos, filmes e afins. Aliás, eu sempre choro quando assisto Mary Poppins. Todas as vezes. Agora mais do que quando era criança. E mais ainda depois de assistir Saving Mr. Banks – em português, Walt nos bastidores de Mary Poppins. Estou passando por uma fase de pico hormonal, tá tudo descaralhado, mas segundo análises médicas, nada fora do normal. Ao mesmo tempo, sei exatamente que caminho seguir, é aquele para onde meu coração aponta e canta. Só me falta ir.

Ps: termino essa autoanálise com esse vídeo da Harley Davidson, que é um desses que me fazem chorar. Assisti duas vezes mais cedo, e chorei nas duas. Arrepiante. Sinta daí.

A ideia do ‘Self image’ é do Eric Schneider.

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Des(travei)

Oi.

Já se passaram alguns meses desde que a vida aconteceu. Saí da capital da Irlanda, depois de 6 meses enfrentando o frio, a chuva, os ventos que literalmente te empurravam e o pouco da neve que caiu em solos dublinenses. Aí eu me mudei pra uma cidade do outro lado do país, de seis mil habitantes, linda, viva, extremamente viva. Mas ainda fria e chuvosa. E de repente era gerente de um escritório. Eu. Gerente. Chefe. HUE. No início não pensava no peso de minhas responsabilidades e tudo fluía bem. Até que todas despencaram em minha cabeça de uma vez só. Sem dó. Elas me olharam lá de cima, de onde quer que estivessem e se jogaram. Ou foram jogadas. Ainda não sei. Só sei que nem esperaram eu abrir meus braços. E então caíram, se espalharam, mas não se desgrudam. Ando carregando todas em tudo o que faço. Nas pints que bebo. Enquanto como. Inclusive levo todas pra cama. Seja com outras pessoas ou só comigo mesma.

Agora sou um amontoado de stress e reclamações. De noites mal dormidas. De coração palpitando sem motivo aparente ou quando ouço meu celular tocar. O toque de uma mensagem já me causa arrepios. Fudeu. Do que esqueci agora? Não importa o quanto eu faça, pense, repense e revise, toda vez em que acho que consegui, vem um detalhezinho com um sorrisinho imbecil de AHA! Cê nem me viu, mas tô aqui. Agora sou olheiras. Gente. Olheiras. Nunca as tive em minha vida, nem nos piores momentos que vivi. E já estive pior que isso. Muito pior. Sim, eu já tive olheiras que duraram um dia, mas duas semanas? Duas semanas são reflexo do meu corpo gritando pra eu parar. Minhas flatmates me olham e ao longo do dia ouço várias vezes: how are you feeling? are you ok? you look exhausted. are you sure you are ok? annie are you ok annie are you ok are you ok annie? Não. Minhas respostas têm variado entre I feel like shit e olhares em que rio pra não chorar. E penso que tá acabando. Tá quase. Só mais duas semaninhas, Carol, o que são elas depois desses quatro meses? Os dois primeiros foram bem. Maio e junho duraram uns três anos cada. Tá quase, Carol. Foi o que pensei enquanto chorava até dormir ontem. E na noite de sábado também. Voltei mais cedo pra casa, depois de duas pints de Guinness estava me sentindo o último ser humano da face da Terra, cambaleante como se estivesse completamente bêbada. Entrei dentro de casa engasgada com meu choro, escovei os dentes como podia, arranquei a roupa e chorei até dormir. Ou dormi até chorar?

Acordei ontem, domingo, tive de fazer um pequeno trabalhinho, bem irritantezinho, e depois recebi e-mail com desaforo do chefe. Respirei fundo. Calma. É domingo. Ignorei o e-mail, já tinha feito o que devia. Saí pra almoçar quase no fim da tarde, entrei em dois cafés que estavam lotados e estava quase voltando pra casa, quando achei uma mesa em um que adoro. Queria sair do circuito de sempre, mas sentei e curti meu salmão com pão feito com Guinness. Delícia. Enquanto isso, pensava que já tinha atingido meu limite. Assim como pensei várias vezes antes. Mas me faltava coragem. Se tivesse um lugar pra onde correr, ia embora antes de essas últimas duas semanas acabarem. Calma, Carol, tá quase acabando. Era o que me dizia ontem enquanto chorava depois de assistir Mary Poppins pela milionésima vez. Oh let’s go fly a kite, up to the the highest height

Eu sinceramente não sei como fui me enfiar no único trabalho que eu tinha certeza de que não quero pra minha vida: trancada dentro de um escritório. Mas é temporário, mulher, relaxe, cê tá ganhando uma grana, gritam muitos por aí. E cá estou, lutando contra o que realmente quero, simplesmente porque é temporário. Tendo ataques de pânico. De choro. De enjoos. Dores de cabeça. Meus níveis de stress chegaram a picos tão altos que me peguei várias vezes olhando pela janela do meu quarto e observando o Pub que fica do outro lado da rua, meu preferido, e desejando poder trabalhar lá. Ah, como eu queria lidar com os irlandeses bêbados e depois limpar aqueles banheiros… tudo valia mais do que qualquer posição confortável como gerente.

Hoje de manhã estava tão descaralhada que nem o fato de que daqui a três semanas estarei em uma cidade que sempre quis conhecer está me animando. E nem que daqui a pouco mais de um mês estarei voltando pro Brasil. Hoje, pela primeira vez, enfrentei meu chefe. Educadamente, tremendo, mas fui lá e fiz. Pensei em mim mesma antes de qualquer outra coisa. Mesmo que ele tenha levantado a voz, emputecido, continuei firme. E agora sigo sem energia. Hoje, pela primeira vez, estou solenemente empurrando o trabalho com a barriga. Respondi apenas o que não podia esperar, de acordo com meu julgamento. E que sempre funciona. O resto é manejável. E que se foda.

Que se fodam os padrões de sucesso. Eu não nasci pra morrer de trabalhar e esquecer de viver. De que adianta batalhar contra si mesma e sair toda escangalhada? Crescer é isso? Então não quero. Quero lidar com meus medos e responsabilidades, mas sem me matar por isso. Se crescer significa trabalhar, trabalhar e trabalhar enquanto você tenta encaixar o resto da vida ali no meio, quero voltar pra minha cabaninha de cobertas e almofadas e desenhar até o dia raiar.

Chained

Quero ler. Não consigo.
Quero escrever. Não consigo.
Quero sair. Não consigo.
Quero fazer planos. Não consigo.

Às vezes parece que a vida não me consegue.

Carta de redenção

Comecei a escrever um texto no meu diário novo, mas percebi que ele não cabia lá. Minhas palavras precisam ser públicas. Porque eu finalmente enxerguei e aceitei algo que há tempos vinha me assombrando.

Primeiramente, gostaria de pedir minhas mais sinceras desculpas. Antes de ser a qualquer outro alguém, quero pedir desculpas a você, Carolina. Eu falhei. Venho falhando. Realizar nosso maior sonho foi algo que nos tirou do chão e nos deixou tão embasbacadas que me peguei cometendo os mesmos erros de sempre. Sabe quando a gente sempre sonha em voar, imagina como vai ser e quando acontece muita coisa parece não ser? Eu voo, pouso, mas não tenho conseguido colocar meus pés no chão pra continuar e agir. Voar sempre não é saudável, ainda mais sem rumo.

Venho carregando e arrastando o desnecessário há algumas existências, e quanto mais eu limpo, mais desnecessariedades aparecem. Não importa o quanto eu esfregue, siga em frente, sempre tem algo que fica e insiste em não sair. Já sei que não estou tentando apagar a imagem daquilo que sou e tentando ser o que quero e posso ser, estou apenas tentando seguir em frente. E tenho seguido, mas não importa o quanto eu corte as amarras, ande, me solte, parece que ainda sigo um padrão imposto por outro alguém que controla todos os meus movimentos. I never had the nerve to make the final cut.

Então, ontem, depois de já ter falado sobre o assunto com uma pessoa ou outra, de ter ficado horas em sites e sentir meu coração voar e sair do meu peito com a possibilidade de fazer aquilo que quero, me veio um estalo: é isso. Senti um arrepio tomar conta de todo o meu corpo, seguido de uma leve sensação de euforia. A vida estava viva. É isso que quero fazer, também faz parte do meu sonho. Olhem aqui pra mim, eu sei de algo que realmente quero fazer, me abracem! Foi aí que tive outro estalo: eu posso. Realmente posso, sem precisar de muito esforço. Tenho todas as ferramentas em mãos. E aí a vida ficou tão viva que mal conseguia respirar.

Tanto que explorei tudo até a última página, até não sobrar espaço pra mais nenhuma alegria. Voei desgovernada até a hora de dormir, sem conseguir pegar no sono por algumas horas. E é por isso que peço desculpas, Carolina. Me desculpe por não te deixar ser, te cortar, não te deixar ir. Eu acordei. Agora segure em minha mão, não briguemos mais, sigamos em frente, sejamos aquilo que somos, livres, voemos. Não porque o mundo seja nosso, mas porque ele é de todos nós.

daqui

Sono vespertino

Perdi o sono ontem à noite.

Acabei indo ver o que não devia, senti coisas estranhas no estômago, era um misto de nada com borboletas mortas. Talvez tivesse a ver com aquela época em que me faltava a paz. Sim, agora a tenho, mas ela não é inabalável. E não, eu não devia ter ido ver aquilo que não devia, mas precisava. Não ver é também uma forma de anestesia. Não me torturei. Só fui lá, vi, as borboletas morreram, mas nem suei frio. Só me desagradei. Sim, é difícil admitir, mas ainda dói. Não machuca, só incomoda.

Igual a esse sono de uma noite com poucas horas dormidas. Igual a você, que me trouxe tanta paixão, igual a você, que pareceu me tirar tudo e ainda teve a coragem de sair por aí sorrindo.
Vocês dois.
Que se foda.

Agora vou ali tomar minha segunda xícara de café do dia e absorver as ironias e acidez do Dr. Gregory House. Porque a vida, meus caros, é cheia de coisas feias. Eu até poderia ter aproveitado a tarde pra tirar um cochilo, mas então só sonharia com imagens daqueles antigos fantasmas que já não me trazem nada pra vida. Ver o Dr. House, com toda sua tristeza e melancolia, pisando em cima de tudo e todos e arriscando a vida dos pacientes pra poder fazer mais alguns de seus diagnósticos fantásticos fez mais sentido.

E, por favor, não me culpem se decidi carregar comigo o máximo possível daquilo que é bonito, enquanto sorrio com desprezo para aquilo que não me acrescenta mais.

Perdi o sono ontem à noite. E no meio de meu sono da tarde, tive vontade de sentar aqui e escrever, meio sem querer.

P.s.: Seguir em frente é uma das coisas mais difíceis de se fazer na vida, mas o ato em si é tão simples que depois que tudo passa todo o peso se vai. E acredite, se encontrar não é tão difícil quanto parece, basta que a gente queira enxergar. E aceitar.