Unsent letter #2

Moço,

Você já é ‘homem feito’, mas ‘moço’ é mais sua cara. Ou então a cara que gosto de dar àqueles que entram de maneira sutil aqui dentro e tomam um lugar tão bonito que dá vontade de sentar e não parar mais de escrever. Não é paixão, é admiração. Não sei. Paixão de ocasião, talvez. Daquelas que são meio bobas, chegam a ser fofas, até. Mas que tomam um lugar tão bonito, tão sereno e leve e inocente que pareço sair de meu corpo e me vejo dançando sozinha por aí. No momento, Grey Room, de Damien Rice – que aliás, não tem nada de leve e sereno, mas ainda assim não deixa de ser bonito. Warmer than warm, yeah.

Quando cheguei naquela velha sala, todos aqueles quadros e histórias que já devem ter se passado por ali, seu rosto parecia carregar um peso que todos os escritores supostamente têm dentro de si. Todo aquele papo de que escrever dói, tem que doer, senão não vale, não tem beleza. Papo furado.

—– Moço, olhe bem, você também saiu de onde quer que esteja agora e também dança comigo. Sorrindo seu sorriso tímido, mas cheio de você.
—–

Seu rosto cansado, mas cheio de um algo que me cativou logo de cara. Seu olhar leve, talvez seus cachos displicentemente jogados, seu rosto com barba por fazer. Assim, displicente. E veja bem, nem gosto muito dessa palavra: displicente. Seus cachos. Senti vontade de passar meus dedos entre eles inúmeras vezes enquanto te ouvia falar; mas só estou consciente dessa vontade agora, dias após a última vez que te vi, enquanto ouço Damien Rice cantar a Grey Room por nem-sei-mais-quantas vezes seguidas. Coloquei no repeat e mesmo com todo esse peso e descrença, é tudo leve e sereno.

Moço, só escrevo pra te dizer que antes de entrar naquela velha sala sequer havia ouvido seu nome, que é bastante reconhecido no meio literário, mas seu rosto não me era nada estranho. Mesmo que eu tivesse certeza de que nunca tinha te visto antes, você já havia aparecido em algum lugar de minha mente. Suas palavras e ideias fluíram e se encaixaram perfeitamente bem aqui dentro. Vou levá-las comigo com carinho. É bem provável que sequer voltemos a nos encontrar, que essas palavras não cheguem a você, mas nem isso me deixa triste. Even if I scream, I can’t scream that loud.

Pra você, desejo muitas inspirações. E textos. Livros. Poemas. Amor.
Pra você, deixo aqui, por aí, um beijo e um abraço que não te dei.

* Escrito na primeira hora do dia 22 de julho.
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Unsent letter

Olá, você.

É, você mesmo, aquele que me fazia sentir aquilo tudo, mar de sentimentos, verde, whiskey, Pink Floyd, Damien Rice. Vira e mexe me lembro de você e mais aquilo tudo que era e não foi. Mas não importa, o que importa é tudo aquilo que senti. Aquilo sim foi real. E sabe, esses dias lembrei de você. Lembrei com carinho, aquele carinho que esquenta o peito, que não dói, só traz saudade gostosa. Pensei que fosse ter muitas coisas a dizer quando resolvi que escreveria mais um texto pra você. Mas aí lembrei que escrevê-lo aqui talvez não faça tanto sentido, até porque essa é só mais uma das várias cartas que já pensei em te enviar. Agora você já não é mais aquilo tudo que senti, sua vida se movimentou para outros ares, a minha se movimentou e desaguou em outros mares. Sabe, acho que alguns amores nunca deixam de ser amor, eles só passam a ter outro significado e lugar aqui dentro. O seu lugar sempre estará aqui, não para um reencontro, ou última tentativa de viver aquilo que não foi, apenas porque pra mim amores não são substituíveis, eles apenas são.

Não vou dizer que nunca imagino um reencontro, ou como seria te ver de novo depois de tantos anos. Imagino sim. E o cenário é alguma dessas praias fluminenses lindas, com um belo fim de tarde após um dia ensolarado pintado acima de nós. Sim, ensolarado, eu sei que você gosta de dias chuvosos, mas eu nem tanto, então me deixe que o cenário é meu. Imagino um céu pintado de um laranja-quase-vermelho, enquanto conversamos distraidamente sobre a vida sentados na areia. Você me conta tudo o que se passou nesses últimos anos e tudo o que quero é te abraçar. Te abraçar até que você sinta toda minha gratidão por ter me acordado e me mostrado que eu era capaz de sentir coisas tão lindas por alguém. You saved me the day you came alive. Mesmo com toda sua descrença no amor e em sentimentos daquela época, foi você que me fez sentir de novo. E meu único arrependimento é nunca ter te dito isso. Me desculpe pela falta de coragem, inclusive naquele dia em que você me perguntou quem era o alvo de meus sentimentos e menti dizendo que era outro, porque eu não queria te dizer nada daquilo através de uma tela de computador. Ainda assim aqui estou, escrevendo tudo através de uma tela de computador.

Mas não importa. O que importa é que você de alguma maneira soube. Não de tudo, mas de boa parte. E acredite, foi tudo muito real, claro e límpido, mesmo que tudo em você naquela época fosse apenas chuva e nebulosidade. Tome aqui um beijo meu.

rain

P.S.: There’s a very bright side of the moon, really. 

Small Crime


É. Roubei. Descaradamente. Sem nem pedir.
Estava aqui sentindo mais do que devo, pra variar um pouco. E então essa imagem me veio à cabeça… fucei por algumas páginas e não achei. Eu sabia que ela estava em outro lugar além daquele que sempre aparece com você, mas não estava achando. É, melhor deixar pra lá. Afinal de contas, sou muito mais palavras do que imagens…
Mas então aquela sensação voltou. Aquela que toma conta de mim quando vejo/ouço algo que me toca lá no fundo. Que aperta o botão que diz: SINTA. E então me sufoco. Resolvi procurar mais uma vez, nas páginas antigas. Eu já vi aquela foto aqui, certeza. Ah, achei. Salvei. Viu, ela passou despercebida. Veja só que coisa. Não sei porque cismei com ela. Não mesmo. Sou muito mais palavras do que imagens, já disse. Mesmo que muitas delas digam mais do que mil palavras. Mas aí, essa imagem. Meus dias preferidos são aqueles ensolarados. Você bem gosta de um dia chuvoso e nublado. E essa imagem aí me faz querer que chova constantemente. São quase quatro horas da manhã e estou ouvindo a 9 Crimes pela ? vez seguida. Perdi a conta. Parei para pensar. Fui parar lá na Elephant. E voltei. Sentir.
it’s a small crime, and I’ve got no excuse.