Carta para mim mesma

Oi, Carolina. São quase 4h da manhã de quarta-feira e você acabou de tomar um chá irlandês, mesmo sabendo que esse calor não combina com chá. Agora você está suando, mas não se arrepende da escolha. Nos últimos dias você tem escolhido ficar acordada até quase amanhecer, jogada no sofá, assistindo a filmes que já assistiu, tentando entender e ver pra onde deve ir, mas pouco ouve o que tenho falado. Pouco age. Está quase inerte, mal consegue parar pra ler, tenta escrever, publicar, mas acha que é melhor manter aquilo só pra si mesma.

Já tem um mês que voltamos ao Brasil. Um mês que estamos nos debatendo e lutando, tentando entender e saber lidar com essa coisa que é a vida adulta. E você bem sabe que ninguém sabe ser adulto. Nem lidar. Mas nem por isso deixa de ser gente grande e de crescer. A vida é mesmo essa sequência de situações em que não sabemos lidar, mas que estão aí e sempre estarão. E, miga, me ouça, você sabe bem pra onde ir.

Pare de tentar me silenciar. Pare de pensar naquilo tudo que você queria escrever e não escreveu. E escreva. Sente e escreva. Pelo amor de vovó, escreva. Sobre Dublin, sobre Westport, sobre Londres e o pedacinho da Inglaterra que você visitou. O tempo passou e continua passando, mas tudo está gravadinho aí dentro, tanto que você senta e chora ao parar e lembrar de tudo o que viveu no último ano. Voltar pra um lugar que a gente conhece do avesso depois de passar um tempo em terras totalmente desconhecidas causa mesmo essa sensação de pânico, porque o mundo é cheio de coisas e pessoas estáticas, que não mudam e nem andam pra lugar algum.

Por favor, pare de me parar. Lutemos, mas lutemos juntas e quando for necessário, não uma contra a outra. Deixe-nos ser. Você está exausta, bem sei. Mas eu não vou parar. E nem me cansar. Baterei, gritarei se for preciso. Jamais desistirei, jamais deixarei de acreditar. Deixe de ser cabeça dura. Pense menos. Pelo amor de vovó, bem menos. Venha logo, se jogue, atravessemos juntas.

Junte seus pe
da

ços espalhados pela casa,
EXPLODA
e voe inteira por aí.

Carta de além-mar

Oi, vó. Estou aqui sentada, lutando contra. Não sei dizer ao certo contra o quê, porque é difícil. Só sei que desde ontem ando com uma vontade enorme de sentar e te escrever. A gente não conversava muito, né? É que sou fechada mesmo, a senhora bem sabe. Bem quietinha no seu canto, a senhora sabia de tudo. Via tudo. Sentia tudo. E só falava quando achava conveniente. Nisso a gente se parece.
A senhora lê daí, de onde está? Pode ler meus pensamentos também, dá no mesmo. Daí a senhora vê tudo? Então deve estar feliz de ver que estamos bem. Aliviados. Temos certeza de que a senhora cumpriu muito bem o que tinha de fazer por aqui nesses 94 anos de vida. Estamos com uma saudade ainda bem dolorida, mas bem. Nada de tristeza. Papai me falou que a senhora dizia que temos sim de ficar tristes quando perdemos alguém querido, que devemos chorar, pois dói muito, mas que não podemos deixar a tristeza nos dominar, e sim dominá-la, transformando-a em saudade. Bonito. Simples. Assim como a senhora.
Sabe, vó, meu respeito e admiração pela senhora sempre foram enormes, e por isso mesmo sei que a senhora não era perfeita. Tenho problemas sérios em admirar a perfeição. Mas a senhora sempre foi o mais importante: amor. Do seu jeito quietinho e às vezes até frio, sempre distribuiu muito amor por aqui. Por aí. Pelos 15 filhos que teve. E mais um que recebeu em casa de coração. Pelos 50 e tantos netos, mais bisnetos e até tataranetos, estes que a senhora mal conheceu. Aliás, sempre me admirei ao ver como a senhora distribuía esse amor desmedido entre tantos filhos e netos. Como é que cabia tanto aí dentro desse peito? A senhora era a prova viva e verdadeira que em coração de mãe sempre cabe mais um. Tanto que a senhora abriu espaço para mim. E minha irmã. Abriu sua casa, seu coração.
Também ja me perguntei várias vezes onde é que cabia tanta força aí dentro. Sua fé ajudava, eu sei, mas ainda assim é admirável. Perdeu três filhos, viu outros três se afastarem sem dar muita notícia, perdeu dois netos, quase todos os irmãos e irmãs, mas nunca caiu. Chorou, ficou triste, deixou doer, mas transformou tudo em saudade. E saudade da boa que eu sei, pois sempre contava casos de todos que já haviam partido com muito bom humor e carinho.
Sabe, vó, se a senhora teve tempo de andar me observando nesses últimos dias e percebeu minha tristeza, fique tranquila. É dor por a senhora ter ido embora, sim, mas não é só. Essa dor desancadeou outras. Outras que sempre ficam dentro da gente, mas que passam. A senhora sabe, bem sabe, sempre me observou quietinha no seu canto, sem dizer nada, mas sei que sabia. E sabe. Sempre saberá.
Comecei a escrever sem saber muito bem o que dizer, e talvez ainda nem saiba, mas só gostaria de dizer que sinto um orgulho enorme de poder dizer que convivi diariamente com a senhora por cinco anos; depois disso, mais quase três anos, depois que me mudei para Mariana, entre feriados e férias. Só fiquei triste de ter chegado aqui no final do ano passado e já te encontrar no hospital. Nos vimos duas vezes antes de sua partida. E sabe, preciso dizer, sempre soube que a senhora não voltaria mais. Um passarinho que está aí, agora também com a senhora, me contou em um sonho. Sei que a senhora sabe.
E vó, quero dizer que apesar de não estar mais entre nós e sentir sua falta, não sinto que a casa esteja vazia de você. Muito pelo contrário, sinto sua presença em todos os cantos. Assim como nossa querida Malô resumiu muito bem em suas doces palavras:
“Vovó Lourdes se foi?
Não mesmo, isso não é do feitio dela!
É sempre muito discreta, isso sim.
Deve estar escondidinha
Só esperando a gente passar
Pra dar um abraço quentinho
E um naquinho de goiabada!”
Um beijo dessa sua neta cabeçuda, que ainda vai dar muita cabeçada pela vida, mas que vai ser feliz, muito feliz, pois tem no sangue o seu sangue, e sempre vai encontrar uma dose de força e fé para seguir em frente.

uma carta

A,
Há tempos venho tentando te escrever. Penso em você principalmente à noite, quando estou sozinha em meu quarto, deitada e embriagada pelo sono. Você também embriaga, já te disseram? Milhares de vezes, mas nem sei se você ouve. Não importa. Talvez não ouça mesmo, e é por isso que venho tentando te escrever. Porém, em meio a todos aqueles pensamentos sentimentos entos acabo me embriagando e durmo no meio da carta mental que venho te escrevendo há tempos. Desde que nasci, talvez. Mas vamos à carta, que já está acontecendo desde o A. Tentarei não me perder tanto em sua embriaguez.
Sua primeira aparição foi…? Ah, não teve a primeira, pois você sempre esteve, mesmo que eu não te enxergasse. Ou aceitasse. Tanto faz. Mas me lembro de encontros marcantes. Eu, com meus 13 anos, e você, bem de leve. Vocezinho. Depois, aos 16. E daí pra frente, foram oito anos de turbulências aqui dentro. Você ia e voltava. Dormia e acordava. Até que te mandei embora de vez. Também houve a época em que você dormiu tão profundamente que não pude te achar. Tentei, vasculhei, e NADA. Foram alguns anos de abstinência, dormência, ausência de mim mesma. Então você acordou e veio a enxurrada. Eu mal podia respirar, sentava e chorava sozinha, pois quando você apareceu, foi parar em mares distantes. Doía, como doía não poder te viver. Doía tanto que não consegui ir atrás. Faltou coragem de te ser. Te ter. De tentar te viver. Aliás, só a ideia de tentar te viver me aterrorizava. Culpa de todos aqueles mares. Mares que se transportaram aqui pra dentro do meu peito. As turbulências foram várias, as tentativas de te assumir abertamente também. No final, tudo falhou. A, se você soubesse como doí!
Eu ainda doía quando você apareceu de novo. Devagarzinho. Sorrateiro. Matando o seu eu anterior. Em meio a olhares despretensiosos. E um cavanhaque. Cavanhaque este que vai e vem, e que agora está, mas você aparece mesmo sem ele, afinal é só uma parte de um ser todo. E você é sempre um todo, até com o que não me agrada, pois não pode ser pela metade ou só um pedacinho. Te ter em pedaços adoece. E mata. Alguns meses se passaram até que eu te assumisse. Te aceitasse vindo do outro lado. Te receber também pode ser assustador, mas dessa vez você veio calmo, sem muito alarde. E ainda assim, toma conta de cada pedacinho de meu corpo, fazendo com que eu volte atrás, e veja bem, passe por cima, esmague, estraçalhe meu orgulho.
Te odeio, mas não consigo odiar. Afinal, A, quem quer te ter, precisa ser inteiro, sem vírgula ou espaços para respirar. Amar. Amar deve ser isso.
Sua,
C.

Meu caro Moleskine

Você não se cansa, meu caro? Não se cansa de ter todas essas palavras gravadas em suas linhas, que são sempre sobre eu, eu, eu? Não se importa que eu escancare suas páginas ainda virgens e brancas e as polua com meus pensamentos mais profundos, tão cheios de eu, eu, eu? E todas essas marcas que deixo para trás? São belas e sujas… mais belas do que sujas? Nem tudo que é belo é bonito… e vice-versa. Mas você não se importa, não é mesmo? Afinal de contas, você nasceu para isso… nasceu para ser aberto, não possuir sentimentos próprios, apenas gravar as palavras, figuras e sentimentos de pessoas como eu. Ou pessoas bem diferentes de ‘eu’, que apenas precisam exteriorizar seus sentimentos em algum lugar cheio de folhas e linhas vazias. Não sei quanto aos outros todos que sentem por aí, ou todos por aí que sentem, mas eu, toda vez que vejo linhas e folhas em branco, tenho vontade de sair escrevendo freneticamente. É como se elas gritassem e implorassem para serem preenchidas. Como se estivessem tristes por serem vazias, brancas, amareladas, abandonadas… suas folhas, meu caro, beiram o amarelo. São… beges? Me lembram papel antigo. Quando te comprei, há mais de um ano, suas folhas eram mais brancas. E leves? É, agora elas são cheias de mim. De eu. Você não se cansa? Até eu me canso. Sabe, às vezes, quando te abro para escrever, fico esperando algum tipo de reação de sua parte. Enquanto pressiono o lápis contra sua folha, você retribui a pressão e minhas palavras fluem lindamente, deixando minhas marcas pelo seu corpo já um pouco amarelado. Mas sabe, eu espero uma reação além dessa simples troca de forças, relacionada a pura física. Às vezes tenho a nítida impressão de que, após eu escrever repetidamente sobre eu, eu, eu, você vai se fechar subitamente e pedir para eu parar. Parar tudo que estou fazendo e ir ali colocar todos esses sentimentos em prática.
Ou simplesmente,  
viver.

* Texto escrito no dia 23 de setembro de 2010, no meu caro Moleskine.

Verde

Eu estava aqui quieta e feliz, quando resolvi reler meus textos antigos. Esses sentimentos todos. Eu toda. Escancarada, pronta para ser lida e devorada. E aí li algumas palavras suas. Tão cheias de você, veja que coisa. E aí me subiu um calor aqui no peito… deve ser saudade, pensei. Até que começou a doer. Vazio. Solidão filha da puta. Vou ouvir Pink Floyd! Coloquei os headphones. Quem sabe esse vazio vá embora. Não sei por que diabos resolvi fuçar, voltar lá naqueles sentimentos todos. Minha irmã me chamou ali para assistir House com ela, estou com tanta saudade daquela acidez toda… mas nem consegui mexer minha bunda. Ela está sentadinha aqui, nessa cadeira dura, há quase uma hora. Estou fuçando e refuçando. Não minha bunda, minhas palavras. Talvez eu esteja tentando te buscar aí. Um pedacinho só que seja. Você que entende de Física, me responda: existe um meio de transportar uma moleculazinha sua que seja aqui pra perto de mim? Só pra eu poder sentir seu cheiro. Sabe, hoje a falta de notícias não dói tanto assim. Não me sufoca e nem me faz pensar que vou enlouquecer a qualquer minuto. Coloquei os headphones há alguns minutos, mas ainda não consegui parar de digitar. Meus dedos não me obedecem. Capeta. Espere aí. Talvez eu não queira ouvir música, talvez eu apenas tenha tentado abafar isso tudo que vem aqui de dentro. Mas aí eu me lembro: gritos internos não podem ser abafados. Olha a musiquinha da abertura de House! Ai, que saudade! Algo ficou verde. Estupidamente verde. Sabe, esses dias andei assistindo a alguns vídeos aleatórios do The Wall, que coisa mais absurdamente linda, senti tanto que me sufoquei. É. Bizarro aquilo tudo. Preciso parar para assistir ao filme inteiro. Olha, sempre que penso em você, há algo relacionado ao verde. É uma cor tão… verde. Sabe? Tipo refrescante. Me lembra leveza. E você. Eu estou. Me envenenando e tentando destruir meu estômago que já não anda muito bem das pernas. Mas estou. Agora, verde. E você. Como está?