2 de junho

Ando cansada de sentir demasiadamente. Ser eu demasiadamente, o tempo todo, sem tempo nem pra respirar e descansar de mim. Que sejam por alguns minutos, apenas. Venho pensando e dizendo – mesmo que para mim mesma – isso por aí. Folheei algumas páginas do meu Moleskine e reli algumas palavras. Sobre esses sentimentos todos. Sobre eu toda. Me bateu uma preguiça enorme. Como é que cabe tanto aqui dentro? Que preguiça. Deve ser por isso que ando tão apática. Tão sem vontade de tudo e nada ao mesmo tempo. Preguiça. Preguiça enorme. Porque volta. Sempre volta. Tenho certeza de que, a qualquer momento, uma folha vai cair na minha frente e então pensarei em você. Direi seu nome para mim mesma. Se estiver sozinha, será em voz alta. E voltarei a sentir sufocar. A ter dores no estômago.
Hoje eu acordei de mal de mim. Da minha cara, do meu cabelo. Sei lá… só sei que achei esse texto perdido em meu Moleskine e a data dele era 2 de junho… mas acontece que o escrevi em setembro. SETEMBRO, cara. Já está quase acabando! Por que diabos voltei em junho? O tempo voa, escorre pelas mãos, vamos nos permitir… bla bla bla, cala a boca. Meu celular apitou com uma mensagem, mas era só a Claro. E você, meu caro, pode tratar de dar as caras de novo e dizer que está vivo, trabalhando até morrer e sem tempo para as coisas que gosta, inclusive eu.

Dúvida

Estou ficando surda!?
Tento ouvir a voz da razão, mas a outra grita. Grita até fazer meu coração disparar. Deixar minhas mãos geladas. Enxergar tudo onde pode não haver nada. Acreditar no que não existe. NÃO TEM NADA ALI, CAROLINA. Viu? A razão grita, mas a outra também. Quase estoura meus tímpanos. Estou tentando não surtar. Não acreditar no que não existe…

E estou conseguindo. Felizmente, a razão costuma ser minha amiga. Mas ainda dói. Dói muito. Porque ainda resta uma dúvida. Idiota, coisa de adolescente, mas ainda assim, uma dúvida. Estou me sentindo uma idiota. Quando eu voltar a mim mesma, vou poder rir disso tudo. E não me odiar por estar me comportando como uma adolescente. Alguém pode fazer o favor de vir aqui e me estapear, até eu perder os sentidos?

Tô boa não!

Caí da cadeira ontem. Me estiquei pro lado pra pegar não sei o quê e lá fui eu. Não, na verdade eu não caí sozinha, fiz questão de carregar a cadeira comigo. Só pra eu me estatelar no chão com alguma coisa. Fiquei me observando caída aqui, com as pernas pra cima e agarrada na cadeira. A cena era cômica, mas não senti a menor vontade de rir. Doeu. Fiquei um tempo pensando se levantava de uma vez ou esperava parar de doer. Sabe, eu não sou dessas distraídas, que vivem caindo e tropeçando por aí. Gosto de manter meu equilíbrio. Mas parece que, há alguns dias, ele resolveu ir passear em outras redondezas. Não sei quando volta. Poderia ter feito a gentileza de ao menos deixar um bilhete. Certas coisas precisam ser avisadas. Falta de educação, meu querido.
Hoje acordei e meu corpo pesava umas três toneladas. Doía as dores do tombo de ontem. É, caí da cadeira ontem e só senti as dores de verdade hoje. Essas e mais outras. Falta de energia. Dormi até meio-dia, mas esqueceram de recarregar minhas baterias. Tô morta. De morte morrida e matada. Tentei cochilar durante a tarde, mas meus pensamentos não deixaram. Tudo em mim pesa. Coloquei meu Moleskine aqui em frente, pra folhear algumas páginas e colocar uns sentimentos bonitos de lá pra cá, mas ele ainda permanece imóvel… com toda sua pequeneza e imponência de versão de bolso. Tem tanto de mim ali dentro! Uma quantidade que não condiz com seu tamanho. E quem disse que o que é pequeno tem pouco? Take the world upon your shooooouldeeeers. Eu sei. Eu e essa minha mania. Não grite, Daniel Johns. Tentei esticar minha perna, mas tudo doeu. Até meu cóccix. Palavra pequena, consoantes demais. Agora doeu até o topo aqui das minhas costas. Hoje, no final do dia, vesti minha blusa de formatura do Ensino Fundamental. Sim, meus caros marconinos, a minha ainda existe. Azul com um ET skatista, dizendo “Nós trouxemos de Marte a fórmula para alcançar o 2º grau”. 98. Ano feliz. Lembranças daquela época me fizeram rir sozinha. Tive vontade de fazer tudo e acabei fazendo nada. Não sei. Só sei que boa, eu não tô!

Bem feito

Não sou de fuçar o que não devo. Mas quando vi a informação ali, dando sopa, tive de ir ver. Pra enxergar, sabe? Confirmar minha certeza. Só pra eu levar um belo tapa na cara. Daqueles que quase deslocam o pescoço e te jogam no chão. Que deixam um olho preto, que depois fica roxo e depois quase lilás. É, fui lá e vi. Reflexos de palavras e imagens passam por todos os cantos. Meus cantos. Ahaha, sua burra, bem feito! Eu ri de mim mesma. Ri quando me vi caída ali, com um nó na garganta. Um nó que era maior que a dor do tapa que deslocou meu pescoço. Não é arrependimento. Sou adulta e vacinada, com plena consciência das consequências de meu ato estúpido e impulsivo. É raiva de me ter deixado levar por uma coisa que não é certa há muito tempo. Mas sempre tem aquele lado que grita bem alto que ainda pode ser certo. Uma vez que seja. Só uma vezinha a mais, vai. Gritou tanto que fiquei surda pro resto. Pro que realmente importava.

E sabe, depois de ver e confirmar aquilo tudo, tive uma súbita vontade de te ligar. É, você mesmo. Apesar de todos esses quilômetros de distância, era com você que eu queria falar. Só pra te contar o que fiz e depois ouvir sua voz. Você me xingando de todas as maneiras possíveis. Dizendo que tinha me avisado, que eu ia errar, enquanto neguei várias vezes que não faria besteira. E aí eu diria que só errei porque estava cansada de fazer tudo tão ridiculamente certo. É. Eu ainda não tinha passado por este tipo de erro, precisava dele. E desse olho roxo. E mais todas essas dores. Apanhar é bom pra aprender; e pra eu me lembrar de tudo quando me sentir tentada a cometer este mesmo erro. Pode deixar, não precisa me dizer mais nada. Quando eu me esquecer, a placa vai me lembrar. É, essa placa que está cravada aqui dentro, com duas palavras: BEM FEITO.