Das pequenices da vida

Ontem.
Meu celular despertou para que eu começasse a minha semana. Uma hora depois do que eu havia planejado, pois dormi mais tarde do que havia planejado. Levantei da cama, olhei para minha irmã dormindo, que está de férias, e meu cérebro gritou para que eu voltasse para a cama. Dorme mais, filha. Vai levantar pra quê? Eu tenho mais o que fazer, sabe, meu filho? Dormir demais nunca me faz bem. E então meu edredom quentinho começou a conversar comigo. Venha, veeeeenha. Olhei bem para a cara daquela cama quentinha, ouvi as vozes que sempre me dizem para não fazer o que eu disse que ia fazer, sorri para elas. Vocês, sempre tão lindas. Resolvi ouvi-las e voltar para a cama. Mas antes, fui ao banheiro. E então fiz tudo ao contrário.
Voltei para o quarto, arrumei a cama, vesti minha roupa e saí para caminhar. Já está tarde pra isso, olha esse sol, pra quê?, elas gritavam. Mas mesmo assim fui. Saí embaixo do sol forte, desse céu que anda mais azul e mais lindo que o normal. Depois de algumas voltas na praça, amarrei meu casaquinho em volta da cintura, nem aí se alguém estava achando brega. Meio que voltei para meus tempos de escola, quando eu costumava amarrar meu moletom na cintura e andava pelos pátios gigantes do colégio, ou então tropeçava na manga que havia se soltado e caía de quatro em frente à quadra dos meninos que estavam jogando futebol. Aí voltei para a praça e, meio cansada de ficar dando voltas, resolvi ir fazer meus alongamentos. Já devo ter andado uns 6km hoje, tá bom. 
Tinha um moço bonito lá, fazendo os seus alongamentos também, e enquanto eu me esticava, quase virei pra trás e falei: olha, moço, você é bonito, mas não tô boa pra essa coisa de paquera, tá? Chega a dar arrepios quando a gente sente olhares sem mesmo olhar para trás. Olha, moço, eu não tô boa. E aí ele saiu para correr. Eu voltei para casa.
À tarde, jogada no sofá da sala, enquanto continuava minha conversa com o tio Keith Richards, comecei a cochilar. Ouvi minha irmã na cozinha e perguntei se ela ia fazer café, ainda meio sem saber se estava totalmente acordada. Eu quero também, faz favor. E então sentamos ali na sala, eu num sofá, minha irmã em outro, cada uma com sua xícara de café quentinho em mãos. Ligamos a TV na Mtv e alguns clipes de rock estavam rolando. Sweet Child O’ Mine. No meio daquelas cenas em preto e branco, tio Axl Rose se balançando daqui para lá, como de costume, e todas aquelas calças de couro pretas. Não resisti e soltei: gente, olha o Axl e a bundinha delícia dele! Minha irmã soltou uma gargalhada delícia. Pior que é. E então éramos adolescentes de novo. De repente éramos aquelas irmãs que, há uns 13 anos, no auge da adolescência, sentavam na frente da TV e discutiam qual era o melhor solo do Slash. 
Não sei se foi a xícara de café. Ou se foi o amor. Ou só a vida. Talvez seja uma combinação de tudo. Não sei. Só sei que a vida ficou mais clara, meus caros. Afinal de contas, o mundo é bão, Sebastião.