Sobre canetas que não escrevem

Ou algo do tipo.

Oi, universo. Como andas? Bem, acredito. Espero. Eu ando daquele jeito que você bem sabe, nem preciso dizer ou repetir incessantemente sobre minha dificuldade em me movimentar, não é mesmo? O mundo anda meio ao contrário, já troquei as mãos pelos pés há tempos e tenho a sensação de que não vou conseguir me desvirar. Mas não é sobre isso que quero falar. Veja bem.

Há um complô contra meu eu que escreve pra mim mesma, e esse complô é formado por canetas. Sim. Elas se rebelaram, pretas ou azuis, estão em greve, não querem funcionar. Já é a terceira vez que abro meu caderno novo (lindo, de capa dura e vermelha, como tenho sido), felizona pra jogar umas ideias quando, no meio de uma palavra, puf, a caneta que estou usando simplesmente para. Ela me olha, ri, debocha, diz: não, você não vai escrever hoje, nem amanhã, nunca mais. Dessa vez eu ri de volta, peguei meu notebook e vim deixar aqui meu protesto. Vim aqui pra dizer que toda vez que leio algo que me toca e ideias fervilham, tenho mania de sair lendo tudo o mais que posso encontrar sobre aquele assunto, até que consiga acalmar minha mente e ficar sentada em cima desse monte de um aparente nada.

Mas essas canetas, ah! elas não descansam. Outro dia mesmo, uma delas, velha de guerra e companheira, resolveu me deixar na mão bem no meio de um fluxo lindo de pensamentos, enquanto estava sentada em uma cafeteria tentando preencher esse buraco gigante aqui no peito. Assim, do nada, me deixou literalmente na mão, com tudo aquilo pra sair, enquanto esperava por meu expresso que demorava mais que minha força de vontade de lutar por mim mesma. E agora, mais uma vez, a mesma caneta, que eu pensei haver ressuscitado (afinal ela me permitiu escrever algumas frases desde a última greve), acabou de parar mais uma vez. Não me deixou começar nem a segunda frase. Agora ela está ali, meio torta, me olhando e julgando, porque parece ter quebrado no meio do meu ataque de fúria enquanto tentava fazer alguma tinta sair dela. Mas não desisti. Tentei outras duas. Testei em outros papeis só pra rabiscar menos o meu caderno, e as duas funcionaram. AHA! VENCI. Mas não. Uma delas mal me deixou começar uma palavra. E a outra morreu no meio de uma frase. Assim como eu aparentemente tenho morrido no meio de qualquer tentativa de movimento em minha vida.

Não sei bem qual é seu recado, universo. Migo, vamos lá, me ajude daí que eu vou ouvir de cá. Eu sei que preciso voltar a escrever pro mundo, mas ainda preciso daquilo que é só pra mim e mais ninguém (ou pra quem algum dia vier a ler meus diários). Preciso pra quando estiver na rua e aqueles estalos me atingirem na alma e não houver nenhuma outra maneira de escrever o que está aqui, o que sempre esteve e sempre estará. Preciso porque algumas palavras só fazem sentido quando as coloco em tinta em um papel, como é feito há séculos. Escrever aqui também é bom, muitas vezes flui bem mais rápido, posso ir e voltar em palavras que não eram bem aquelas sem deixar um monte de rabiscos pra trás… mas existe toda uma mágica nesses rabiscos e erros visíveis, você bem sabe. Me lembra que sempre haverá tropeços, que eles estão ali, mas principalmente que os superei e segui em frente. Olhar para minhas palavras escritas à mão me lembra de quem sou, de toda a cor que ainda preciso colocar em tudo o que faço. E sim, eu digo olhá-las, de observar, não lê-las.

Não tô consegu… assim morreu a terceira caneta que testei. Ela tentou levar consigo meu eu escritor, mesmo que temporariamente, dizendo pra queimar esse monte de um aparente nada. Mas foi então que me lembrei que não é você que não tem colaborado, e sim EU que não tenho permitido que tudo flua. Agora eu entendi. Esse monte de um aparente nada no qual estou sentada é tudo aquilo que preciso fazer. Falar. Inclusive meus escritos. Sempre soube que tudo estava aqui, só não lembrava onde havia escondido.

Por favor, universo, pegue em minha mão, ande ao meu lado, e me diga que finalmente entendi.

universo
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

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