Passou

Já perdi as contas de quantas vezes fugi dessa tela. De escrever um texto novo. Comecei um texto de fim de ano nos últimos dias do ano passado, mas não passou de uma frase. Não sei do quê fujo exatamente, mas tenho certeza daquilo que tenho medo. Sei também porque não tenho escrito. Mas grito. Não pensem que não tenho escrito, é o que mais faço, eu só não tenho colocado meus textos por aí como gostaria; mas sempre escrevo, pra mim, sobre tudo, sobre todos, sobre mim e tudo o que há pra ser.

2015 foi um ano e tanto. Chegou me atropelando, enquanto enfrentava o frio do inverno irlandês, me jogando na cara que precisava agir ou teria de voltar antes do tempo pro Brasil. Chegou chegando, com o frio e os dias deslizando, com a morte de minha avó materna e eu longe de todos. Passei os meses de janeiro, fevereiro e o início de março deslizando pelas ruas de Dublin, lutando pra terminar meu curso, lutando pra não me afogar naquela tempestade que insistia em me seguir, enquanto meu destino estava em uma cidade de seis mil habitantes na costa oeste da Irlanda. Cheguei por lá ainda deslizando, até que sentei a bunda em uma cadeira de escritório por quase cinco meses e senti que estava caindo em um abismo que não parecia ter fim. Aquela cadeira, minha mesa, tudo fazia parte de uma viagem por um espaço que não me trazia nada além daquilo tudo que me matava. E ainda mata.

Mas aí eu me lembro do quanto eu vivi. Não foi só desespero. Sim, ele fazia parte da grande maioria dos meus dias da semana, mas o que era bom era tão vivo e extasiante, ainda que minúsculo, era gigante. Os meses se passaram, várias pints de Guinness (e de algumas outras poucas cervejas), pessoas, lugares, paisagens, memórias e vida, muita vida, bastante viva. Então chegou agosto, alto verão europeu, desembarquei em Londres completamente sem rumo. Literalmente perdi o ar quando avistei pela primeira vez o Parlamento e o Big Ben, achei que fosse desintegrar ali mesmo, no meio daquele mar de turistas. Fui a Cambridge passar um dia que parecia meio surreal; depois passeei em Liverpool por uns dias, bebi pints no The Cavern Club, aquele onde os Beatles tocaram um monte de vezes que foram quase 300. Depois voltei pra Londres e passei mais uns dias de turista perdida, e no meu último dia consegui ficar a poucos centímetros de Benedict Cumberbatch, esse ser humano de um talento inexplicável. Troquei poucas palavras com ele, tiraram uma foto nossa embaçada e voltei pra Dublin extasiada. E em pânico, já que dali a poucos dias estaria voltando pr’aquilo tudo que conhecia e não queria.

Desembarquei no Brasil em setembro e fiquei fora do ar até dezembro. Passei três semanas no Rio de Janeiro completamente perdida depois de ir ao show de um dos artistas que mais admiro nessa vida (beijos nessa alma iluminada, Damien Rice); passei vários dias afundada no sofá do meu primo, enquanto queria correr até não sentir mais minhas pernas. Até me encaminhar pra onde quero seguir. E então, nos últimos dias desse 2015 turbulento, voltei pro Rio 40º e tive uma das melhores viradas de ano dos últimos tempos em Copacabana.

Eu não queria começar o ano com um texto sobre o ano passado, mas eu precisava. Simplesmente porque terminei 2015 em um turbilhão e comecei 2016 com tudo o que precisava: amor.

El-Buen-Amor.-Con-Nube-De-María.
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

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