Viva

Já são mais de duas horas da manhã. Calor que precede chuva. E das boas. Eu queria sentar e escrever em meu diário, mas tudo que começo a escrever por lá, ultimamente parece não querer. Estou com sono e incomodada com minha posição no sofá, que já mudou várias vezes, mas insisto em continuar aqui, porque preciso deixar sair. Fluir. Mesmo que não goste. Sinto saudade de sentar e escrever pra mim mesma, até minha mão doer. Tenho saudade da época em que deixava minha escrita fluir, sem cortes sem medos sem julgamentos. Em que apenas me deixava jorrar. Ultimamente não tenho jorrado sequer pra mim mesma.

Não é que eu não esteja vivendo. Estou. A vida parece estar acontecendo em pequenos momentos, e eles são tão vivos que mal consigo respirar, não porque eu esteja exausta, mas apenas porque não me importo. Apenas vivo. E então vêm os outros momentos gigantes, que parecem me engolir, são inertes, não querem nada, e acabam se transformando em um só. Um grande e monstruoso nada. Só. E então me vejo tentando agarrar aqueles momentos vivos lindos intensos radiantes, me vejo correndo atrás deles tentando fazer com que não me deixem, por favor, não me deixem.

E então volto naquela noite fresca e leve no Rio de Janeiro. Foi quente intensa apaixonante extasiante. Foi viva. Volto pr’aquele momento em que procurava minhas roupas e acabei decidindo colocar aquela blusa meio jeans, que nem minha era, só pra levantar e encarar aquelas janelas enormes, que me encaravam de volta, mas não riam, eram estáticas. Algumas estavam abertas, deixando a primeira brisa do amanhecer entrar. E ah, como me escancaravam! Fui fazer xixi, tentando não esbarrar naquele monte de entulhos e acabar acordando não só você, mas outros que nem ali estavam. Quando voltei, parei em frente às janelas escancaradas que davam para o mar do Flamengo e pareci sentir o Rio inteiro acordar. Me olhar. E então olhei pra mim, vi que nem tinha abotoado a blusa. Ri. Cheguei na beirada daquelas janelas escancaradas lá do 19º andar e vi o sol nascer. Senti a brisa em meu corpo. O céu estava lindo, pintado de vermelho e rosa. E ah! como eu estava viva! Ali, bem ali, encarando o mar e o céu amanhecendo, eu quase me senti desintegrar, enquanto a vida pulsava inteira aqui dentro.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

2 comentários em “Viva”

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