Des(travei)

Oi.

Já se passaram alguns meses desde que a vida aconteceu. Saí da capital da Irlanda, depois de 6 meses enfrentando o frio, a chuva, os ventos que literalmente te empurravam e o pouco da neve que caiu em solos dublinenses. Aí eu me mudei pra uma cidade do outro lado do país, de seis mil habitantes, linda, viva, extremamente viva. Mas ainda fria e chuvosa. E de repente era gerente de um escritório. Eu. Gerente. Chefe. HUE. No início não pensava no peso de minhas responsabilidades e tudo fluía bem. Até que todas despencaram em minha cabeça de uma vez só. Sem dó. Elas me olharam lá de cima, de onde quer que estivessem e se jogaram. Ou foram jogadas. Ainda não sei. Só sei que nem esperaram eu abrir meus braços. E então caíram, se espalharam, mas não se desgrudam. Ando carregando todas em tudo o que faço. Nas pints que bebo. Enquanto como. Inclusive levo todas pra cama. Seja com outras pessoas ou só comigo mesma.

Agora sou um amontoado de stress e reclamações. De noites mal dormidas. De coração palpitando sem motivo aparente ou quando ouço meu celular tocar. O toque de uma mensagem já me causa arrepios. Fudeu. Do que esqueci agora? Não importa o quanto eu faça, pense, repense e revise, toda vez em que acho que consegui, vem um detalhezinho com um sorrisinho imbecil de AHA! Cê nem me viu, mas tô aqui. Agora sou olheiras. Gente. Olheiras. Nunca as tive em minha vida, nem nos piores momentos que vivi. E já estive pior que isso. Muito pior. Sim, eu já tive olheiras que duraram um dia, mas duas semanas? Duas semanas são reflexo do meu corpo gritando pra eu parar. Minhas flatmates me olham e ao longo do dia ouço várias vezes: how are you feeling? are you ok? you look exhausted. are you sure you are ok? annie are you ok annie are you ok are you ok annie? Não. Minhas respostas têm variado entre I feel like shit e olhares em que rio pra não chorar. E penso que tá acabando. Tá quase. Só mais duas semaninhas, Carol, o que são elas depois desses quatro meses? Os dois primeiros foram bem. Maio e junho duraram uns três anos cada. Tá quase, Carol. Foi o que pensei enquanto chorava até dormir ontem. E na noite de sábado também. Voltei mais cedo pra casa, depois de duas pints de Guinness estava me sentindo o último ser humano da face da Terra, cambaleante como se estivesse completamente bêbada. Entrei dentro de casa engasgada com meu choro, escovei os dentes como podia, arranquei a roupa e chorei até dormir. Ou dormi até chorar?

Acordei ontem, domingo, tive de fazer um pequeno trabalhinho, bem irritantezinho, e depois recebi e-mail com desaforo do chefe. Respirei fundo. Calma. É domingo. Ignorei o e-mail, já tinha feito o que devia. Saí pra almoçar quase no fim da tarde, entrei em dois cafés que estavam lotados e estava quase voltando pra casa, quando achei uma mesa em um que adoro. Queria sair do circuito de sempre, mas sentei e curti meu salmão com pão feito com Guinness. Delícia. Enquanto isso, pensava que já tinha atingido meu limite. Assim como pensei várias vezes antes. Mas me faltava coragem. Se tivesse um lugar pra onde correr, ia embora antes de essas últimas duas semanas acabarem. Calma, Carol, tá quase acabando. Era o que me dizia ontem enquanto chorava depois de assistir Mary Poppins pela milionésima vez. Oh let’s go fly a kite, up to the the highest height

Eu sinceramente não sei como fui me enfiar no único trabalho que eu tinha certeza de que não quero pra minha vida: trancada dentro de um escritório. Mas é temporário, mulher, relaxe, cê tá ganhando uma grana, gritam muitos por aí. E cá estou, lutando contra o que realmente quero, simplesmente porque é temporário. Tendo ataques de pânico. De choro. De enjoos. Dores de cabeça. Meus níveis de stress chegaram a picos tão altos que me peguei várias vezes olhando pela janela do meu quarto e observando o Pub que fica do outro lado da rua, meu preferido, e desejando poder trabalhar lá. Ah, como eu queria lidar com os irlandeses bêbados e depois limpar aqueles banheiros… tudo valia mais do que qualquer posição confortável como gerente.

Hoje de manhã estava tão descaralhada que nem o fato de que daqui a três semanas estarei em uma cidade que sempre quis conhecer está me animando. E nem que daqui a pouco mais de um mês estarei voltando pro Brasil. Hoje, pela primeira vez, enfrentei meu chefe. Educadamente, tremendo, mas fui lá e fiz. Pensei em mim mesma antes de qualquer outra coisa. Mesmo que ele tenha levantado a voz, emputecido, continuei firme. E agora sigo sem energia. Hoje, pela primeira vez, estou solenemente empurrando o trabalho com a barriga. Respondi apenas o que não podia esperar, de acordo com meu julgamento. E que sempre funciona. O resto é manejável. E que se foda.

Que se fodam os padrões de sucesso. Eu não nasci pra morrer de trabalhar e esquecer de viver. De que adianta batalhar contra si mesma e sair toda escangalhada? Crescer é isso? Então não quero. Quero lidar com meus medos e responsabilidades, mas sem me matar por isso. Se crescer significa trabalhar, trabalhar e trabalhar enquanto você tenta encaixar o resto da vida ali no meio, quero voltar pra minha cabaninha de cobertas e almofadas e desenhar até o dia raiar.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

Um comentário em “Des(travei)”

  1. Carolda, me doeu ler seu post… Tenho acompanhado pelo twitter como o trabalho tem te consumido aí e tirado sua paz… Teria alguns conselhos para te dar para tentar (o que vc já está conseguindo, mesmo assim) enfrentar toda essa situação, mas ao invés disso quero oferecer meu ombro amigo e o clichê de que vai passar! Sei como é viver isso, talvez não com tanta responsabilidade sobre mim, mas é muito triste mesmo viver para um trabalho sem muito significado e que exaure nossa força de viver! Mas graças a Deus passa e aí esse período vai ser uma lama muito fértil pro futuro, pelo menos tem sido assim comigo!!
    Estou aqui, ok? Um abraço muito muito muuuuito apertado!!!!

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