Dos meus momentos felizes

Há cerca de três meses estava na casa do meu pai, relaxando e tomando um vinho enquanto conversava com ele (meu pai, não o vinho) e com minha irmã. Estávamos nos preparando pra jantar e meu pai estava tentando abrir um molho de pimenta, feito por um primo meu. Reparei que ele estava numa verdadeira luta para abrir o molho, quando resolvi oferecer ajuda. Peguei o pote, olhei bem, descobri que havia um lacre e disse, feliz: aqui, pai, tem um la…

Não consegui terminar a frase. Dois segundos depois de descobrir o lacre e começar a tirá-lo, a porra do pote explodiu e voou molho de pimenta no meu rosto e, vejam bem, DENTRO dos meus olhos. Sim, nos dois. Porque né, se o universo queria me zoar depois de um dia lindo e sem perturbações, o molho tinha que cair nos dois olhos. Um só não ia ficar balanceado, não ia ter a mesma graça. Gritei de dor, levantei da cadeira balançando os braços, mas caí sentada de novo porque não estava conseguindo enxergar nada. Enquanto isso tentava pensar em uma solução e não esfregar meus olhos, pois sabia que ia piorar ainda mais a situação. A minha vontade era mergulhar minha cabeça dentro de um balde com água gelada e ficar lá, com os olhos abertos, pra ver se eles paravam de queimar. Nesse meio tempo, meu pai agarrou meu braço e disse pra eu ficar calma, que ele ia me levar ao banheiro pra eu poder lavar o rosto. Eu já tinha tentado levantar da cadeira de novo, e só pensava em correr em direção a pia da cozinha e enfiar minha cabeça embaixo da torneira, enquanto tossia, achava que ia engasgar e forçava um choro pra poder tentar lavar meus olhos. Calma, filha, assim cê vai cair, vem comigo pro banheiro. Ele abriu a torneira e comecei a jogar água no rosto, nos olhos e provavelmente em tudo que estava ao meu redor, até no meu pai. A sensação de alívio veio, mas meus olhos ainda ardiam e queimavam tanto que não conseguia ficar com eles abertos. Meu pai me levou de volta pra sala e deitei no sofá; e enquanto ele jogava soro fisiológico (gelado por estar na geladeira) no meu rosto e nos olhos senti um dos maiores alívios da minha vida. Finalmente consegui me acalmar, apesar de que certa sensação de desespero tentava tomar conta de mim, já que não conseguia ficar de olhos abertos e, nos poucos segundos que conseguia, enxergava só minhas lágrimas. Achei que fosse precisar ir num oftalmologista, porque aquela porra estava muito séria. Ah, universo, seu filho da puta.

Foi aí que me lembrei que poucos minutos antes daquele maldito molho voar nos meus olhos eu havia enviado mais uma foto do meu 100 Happy Days. Ainda estava bem no início, e tudo que conseguia pensar era que ia cancelar aquela merda toda. Que ia deletar aquela foto e dizer: ok, I rest my case, seu puto. Não posso nem tentar fazer um desafio feliz que você vem e me joga pimenta nos olhos, universo? Cerca de meia hora depois do alvoroço inicial, consegui ficar de olhos abertos e enxergar além das minhas lágrimas. Não, o mundo não ficou mais claro e limpo e nem enxerguei a luz. O que vi foi meu pai, sentado na mesa, engolindo de qualquer jeito o macarrão que havíamos feito pro jantar. Senti uma vontade enorme de rir. E ainda sinto quando me lembro da cena. Assim que ele terminou, falei que estava enxergando normalmente e que quase não sentia mais ardor. Que alívio, filha. Comi o que pude aqui, né, tinha bebido whisky, achei que ia ter que te levar pra BH pra ver isso, cê não tava nem enxergando!

E então eu ri. Internamente, histericamente. Porque sabe, a culpa do pote de molho de pimenta ter estourado nos meus olhos não foi do universo. Foi minha, que resolvi colocar o pote perto do rosto. Aí vi que nada daquilo tinha a ver com meu desafio. Com meus momentos felizes. E segui em frente. Terminei o desafio. Completei a maratona de postar fotos de momentos felizes por 100 dias seguidos. Houve vários que não foram registráveis, mas no geral não me preocupava. Assim como venho falando por aqui, voltar a ter contato com esse meu lado soft and cudly ainda causa estranhamento, mas é muito mais nos outros do que em mim. E sabem, assim que assumi o projeto, assumi comigo mesma a tarefa de não deixar momentos negativos tomarem conta de meu dia. O universo é cheio de coisas lindas, e ouso dizer que há muito mais coisas lindas que negativas. Mas como ele é maroto, de vez em quando joga um pouco de pimenta nos seus olhos, só pra ver se você vai se render.

Não é que agora tudo esteja lindo. Não é que eu ainda não tenha crises de mal humor. Aliás, a minha TPM desse mês está de parabéns, vem me dando cada paulada na alma que olhem, me abracem. O que resolvi comigo mesma é que não vou deixar o negativo ser mais importante que o positivo. Simplesmente porque a vida é exatamente aquilo que a gente escolhe que ela seja.

daqui
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

4 comentários em “Dos meus momentos felizes”

  1. Sorry, mas achei engraçado o seu relato…PAREI.
    Esse projeto vem sendo alvo de várias interpretações nos últimos tempos só estou lendo interpretações bacanas desse projeto e o mais dificil é iver as coisas boas nos dias horriveis da life.

  2. Eita que situação crítica. :/

    Momentos ruins nunca deixarão de existir, tropeços e tortuosas vivências também não. Mas é importante não torná-los maiores que a gente mesmo, muito além do positivo que ainda nos abraça. A vida é o que a gente escolhe o que seja. E que seja assim Carolda. Sempre.

    Beijo!

  3. Gente, mas que maroto esse universo se divertindo às suas custas. Acho que você ainda segurou bem, eu teria passado horas gritando “HOSPITAL” até alguém me arrastar até um.
    Sobre sua escolha de pesar mais o lado positivo, acho que é uma das escolhas mais importantes e corajosas pra gente viver melhor. É difícil porque parece que adoramos uma treta, adoramos viver âs cabeçadas. E tem horas que é impossível ver lado positivo qualquer. Mas a gente tenta e quando vê tá rindo das situações ruins.
    Beijo!

  4. e a vontade irresistível de participar desses 100 dias felizes também, como faz? tenho uma câmera, eu topo.rs. e olha que não tenho problemas com mau humor, é só estresse mesmo. estresse todo o dia. não tá fácil pra ninguém. e, cara, que falta de sorte você teve nesse dia. eu teria corrido pro pronto-socorro. ainda bem que não foi grave.

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