Desassossegos com Pessoa

Daí que eu nunca fui muito chegada em poesia. Eu leio daqui, leio dali, interpreto cá com meus botões, dizem que a poesia está aberta a interpretações, mas a minha interpretação não é bem aquilo que o poeta quis dizer. Oi. E aí poucas poesias, soltas, me cativam. Algumas de Drummond ali, outras de Pessoa acolá. Aliás, um beijo, Tabacaria. Antes eu insistia em dizer que não era nada, jamais seria nada, quando na verdade, bem aqui no fundo, sabia que era tudo, e que todos os sonhos do mundo não caberiam em mim.

Há algum tempo lembrei que tenho o Livro do Desassossego e resolvi encará-lo de novo. Comprei esse livro em 2011, comecei a ler, mas não consegui continuar. Sempre tinha algo que não se encaixava, apesar de eu me identificar com todo aquele peso, todo aquele pessimismo e coisas que eu insistia em amar e admirar. Então, há um mês, ou dois, não importa, resolvi me entregar aos desassossegos de Bernardo Soares. E agora entendi porque não consegui me prender ao livro antes. Não era a falta de uma narrativa com personagens e diálogos definidos, digamos assim, que de início me parecia fazer falta. O que faltou foi eu conseguir deixar meu lado pessimista para trás.

E preciso admitir que ler as 100 primeiras páginas foi doído. Não de um modo ruim, mas de ver como me encaixava ali, como as palavras saem do livro e parecem ficar por aqui, saltitando felizes e tristes e pesadas e lindas à minha volta. Quanto mais eu leio os desassossegos de Pessoa pelos olhos de Bernardo Soares, mais acho que não vou sentir tudo. Vou e volto nos fragmentos e às vezes tenho a sensação de que vou ler esse livro pra sempre, até o próximo mês, até o ano que vem, até a próxima vida.

Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente.

A verdade é que nunca grifei tanto um livro. E quanto mais eu leio, mais me identifico com Fernando, mais vontade sinto de abraçar e andar de mãos dadas com toda sua Pessoa. A verdade é que quanto mais leio, mais me desassossego, mais quero nunca mais parar de escrever.

— NOTA: Esqueci de mencionar no texto que o Livro do Desassossego é todo em prosa, e foi aqui que Fernando Pessoa mais se aproximou do gênero romance. O livro é como um diário de reflexões lindas, verdadeiras e doloridas da vida, visões bem típicas de Pessoa.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

9 comentários em “Desassossegos com Pessoa”

  1. Pensando aqui, eu só li poesia na época da escola que me exigiam isso. Era até legal, mas só fazia por obrigação. Vou seguir sua dica, Carolda e me desassossegar.

  2. Confesso que você, há tempos, me deixou morrendo de vontade de ler esse texto. Tabacaria é meu poema preferido e volta e meia tento encarar Pessoa mais uma vez. É difícil, denso, pesado, mas é bom. É sensacional. Imagino que esse livro tenha a mesma premissa e espero poder lê-lo em breve. Volte quando terminar para contar como foi o saldo da leitura – ou pelo menos avalie ele no skoob pra eu ter uma noção!
    Abraços

  3. Fiquei feliz de ver que foi esse post que seguiu o da “Confissão”. E pra ler poesia, tem que se estar no estado de espírito certo, ou nem rola.

  4. Eu não costumava gostar de poesia, aliás, ainda não sou muito fã – gosto das coisas claras, especialmente na literatura, embora criar um significado pessoal seja sempre bacana, gosto de tentar entender o que o autor quis passar. Li algumas do Bukowski que são bem diretas e acabei tomando apreço pelo negócio. Me interesse pelo livro e acho que estou num bom momento para lê-lo. Quem sabe eu não o procuro e venho te contar o que achei?

    palavras alienadas

  5. Eita, que fiquei morrendo de vontade de ler. Mas talvez também ainda não seja o meu momento. Não tô nesse ponto positivo da reta em que você está, amiga. Mas um dia eu chego lá.

    Por enquanto, estou com MUITA vontade de ler Leminski. Passo pelo livro dele várias vezes na Cultura, mas ainda não tive a coragem de levar. Quem sabe quando? Só nossos corações.

    Beijinhos!

  6. Sabia que sou virgem de Fernando Pessoa? Nunca li nada do cara! Acho que é por que Pessoa tem que ser lido no momento certo. Como aconteceu contigo. Eu acredito que quando um livro te faz enxergar partes de vc mesma em suas páginas, ele deve ser uma preciosidade a ser guardada a sete chaves. Tô sentindo falta de ler algo assim faz tempo!

  7. oi carol, tudo certinho? sabes que eu também não sou muito da poesia? quando eu era mais nova eu costumava escrever versinhos, mas era aquela coisa bem rimada mesmo, bobinha… nunca comprei um livro de poesia e não sei se teria muita paciência em ler… acho bonito quem tem o dom de escrever palavras soltas, pensamentos traduzidos em sensações e por aí vai, mas sou mais adepta da gramática da “frase certinha”, com sujeito, verbo e objeto. sei lá, parece que faz mais sentido pra mim. mas acho extremamente chyque quem lê poesia e aprecia esse tipo de arte… talvez o meu gosto ainda não seja tão refinada para sentar e ler um pouco de fernando pessoa. quem sabe um dia?
    beijoooo

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