Carta de além-mar

Oi, vó. Estou aqui sentada, lutando contra. Não sei dizer ao certo contra o quê, porque é difícil. Só sei que desde ontem ando com uma vontade enorme de sentar e te escrever. A gente não conversava muito, né? É que sou fechada mesmo, a senhora bem sabe. Bem quietinha no seu canto, a senhora sabia de tudo. Via tudo. Sentia tudo. E só falava quando achava conveniente. Nisso a gente se parece.
A senhora lê daí, de onde está? Pode ler meus pensamentos também, dá no mesmo. Daí a senhora vê tudo? Então deve estar feliz de ver que estamos bem. Aliviados. Temos certeza de que a senhora cumpriu muito bem o que tinha de fazer por aqui nesses 94 anos de vida. Estamos com uma saudade ainda bem dolorida, mas bem. Nada de tristeza. Papai me falou que a senhora dizia que temos sim de ficar tristes quando perdemos alguém querido, que devemos chorar, pois dói muito, mas que não podemos deixar a tristeza nos dominar, e sim dominá-la, transformando-a em saudade. Bonito. Simples. Assim como a senhora.
Sabe, vó, meu respeito e admiração pela senhora sempre foram enormes, e por isso mesmo sei que a senhora não era perfeita. Tenho problemas sérios em admirar a perfeição. Mas a senhora sempre foi o mais importante: amor. Do seu jeito quietinho e às vezes até frio, sempre distribuiu muito amor por aqui. Por aí. Pelos 15 filhos que teve. E mais um que recebeu em casa de coração. Pelos 50 e tantos netos, mais bisnetos e até tataranetos, estes que a senhora mal conheceu. Aliás, sempre me admirei ao ver como a senhora distribuía esse amor desmedido entre tantos filhos e netos. Como é que cabia tanto aí dentro desse peito? A senhora era a prova viva e verdadeira que em coração de mãe sempre cabe mais um. Tanto que a senhora abriu espaço para mim. E minha irmã. Abriu sua casa, seu coração.
Também ja me perguntei várias vezes onde é que cabia tanta força aí dentro. Sua fé ajudava, eu sei, mas ainda assim é admirável. Perdeu três filhos, viu outros três se afastarem sem dar muita notícia, perdeu dois netos, quase todos os irmãos e irmãs, mas nunca caiu. Chorou, ficou triste, deixou doer, mas transformou tudo em saudade. E saudade da boa que eu sei, pois sempre contava casos de todos que já haviam partido com muito bom humor e carinho.
Sabe, vó, se a senhora teve tempo de andar me observando nesses últimos dias e percebeu minha tristeza, fique tranquila. É dor por a senhora ter ido embora, sim, mas não é só. Essa dor desancadeou outras. Outras que sempre ficam dentro da gente, mas que passam. A senhora sabe, bem sabe, sempre me observou quietinha no seu canto, sem dizer nada, mas sei que sabia. E sabe. Sempre saberá.
Comecei a escrever sem saber muito bem o que dizer, e talvez ainda nem saiba, mas só gostaria de dizer que sinto um orgulho enorme de poder dizer que convivi diariamente com a senhora por cinco anos; depois disso, mais quase três anos, depois que me mudei para Mariana, entre feriados e férias. Só fiquei triste de ter chegado aqui no final do ano passado e já te encontrar no hospital. Nos vimos duas vezes antes de sua partida. E sabe, preciso dizer, sempre soube que a senhora não voltaria mais. Um passarinho que está aí, agora também com a senhora, me contou em um sonho. Sei que a senhora sabe.
E vó, quero dizer que apesar de não estar mais entre nós e sentir sua falta, não sinto que a casa esteja vazia de você. Muito pelo contrário, sinto sua presença em todos os cantos. Assim como nossa querida Malô resumiu muito bem em suas doces palavras:
“Vovó Lourdes se foi?
Não mesmo, isso não é do feitio dela!
É sempre muito discreta, isso sim.
Deve estar escondidinha
Só esperando a gente passar
Pra dar um abraço quentinho
E um naquinho de goiabada!”
Um beijo dessa sua neta cabeçuda, que ainda vai dar muita cabeçada pela vida, mas que vai ser feliz, muito feliz, pois tem no sangue o seu sangue, e sempre vai encontrar uma dose de força e fé para seguir em frente.
Anúncios

Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

21 comentários em “Carta de além-mar”

  1. Lindo Carolda, muito lindo. Me fez lembrar da minha própria vózinha que há tanto tempo se foi.
    Mas fique tranquila que Dona Lourdes taí olhando por ti, sempre olhando, cuidando, abraçando… E vai falar quando for conveniente, só que vai ser que nem o passarinho. Por sonho (:

    Beijos

  2. um dos textos mais lindos que já li, sério. tão sincero, tão cheio de amor.

    enquanto eu lia esse texto, pensei em algumas pessoas muito queridas que foram embora, mas que ainda permanecem vivas em meus pensamentos: meu tio, meus avôs, um amigo… e, sabe, fiquei pensando também nas minhas avós, que estão vivas; pensando nas pessoas que tanto amo e que, muitas vezes, não dou a elas a devida atenção.

    um abraço, carolda, e que a sua tristeza seja logo totalmente transformada em saudade.

  3. Carolda, chorei. Tô chorando na verdade e muito arrepiada. Não sei o que dizer, mas foi lindo e me emocionou muito. Amanhã faz dois anos que perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Minha tia com a qual eu fui criada como irmã. E a saudade dela me encontra o temppo todo, mas sinto esse abraço rapidinho do qual você falou de vez em quando. Ela está te vendo sim, e o amor nunca vai embora de nossos corações.

  4. Chorei daqui, viu?
    Acho que escrever nessas horas é um santo remédio, Carolda, e sua dor é mesmo tão lúcida que acho que não resolve dizer nada, porque pelo visto você já sabe de tudo, e foi muito bem ensinada pela sua avó. Deixa doer, porque um dia passa. 🙂
    um abraço muito enorme e muito apertado!

  5. Carolda, admiro muito sua leveza e doçura para fazer esse post, mesmo num momento tão difícil! Como disse a Anna, sua dor está tão lúcida, que eu fiquei sem palavras.
    Meus sentimentos, viu? E com certeza, a tristeza se transforma em saudade, e aí, as lágrimas futuras tem um peso diferente, vai por mim! Um abraço bem apertado!

  6. Misericórdia, D. Carolina! Me fazendo chorar uma hora dessas?! Também perdi minha vó, como já te contei, mas eu não tinha taaaaaanto contato com ela como você tinha com a sua. Fico feliz de você está aprendendo com a sua vó a fazer a tristeza se transformar em saudade – da boa. (:
    Conte comigo para o que precisar, minha amora! Se bem que, né. Você já tem esse seu coração bem resolvido e cheio de fé, você já tem tudo. 😉

    Beijos!

  7. Olha, sinceramente não tenho muito que dizer.
    Assim como admiras a tua Avó pelo imenso amor que ela sempre demonstrou, eu admiro-te por o teres partilhado com todos nós blogueiros que passamos por aqui.

    Realmente, de vez em quando há que se ver um posts assim, é uma lembrança que quão frágil podemos ser, e também nos lembra que a nossa família é a maior demonstração de amor que alguma vez poderíamos ter… Hoje que ela não está fisicamente entre nós, acredito que isso não seja uma barreira pra sentires e apreciares a presença dela. E duvido seriamente que ela esteja contente com a neta dela!


    Quanto ao teu comentário, obrigada! Pois é verdade, não ajuda nada nos crucificarmos, vale mesmo é pedir desculpas e seguir em frente, não cometendo os mesmos erros!

    Fica bem 🙂

  8. Ai, nem sei o que dizer depois de ler algo tão lindo. Eu nunca tive essa relação de avó nem com a materna (que morreu quando eu tinha 4 anos), nem com a paterna (que só me viu quando eu nasci), então eu me pergunto se eu realmente consigo entender o que é isso. Desejo toda a força do mundo, querida!

  9. Moça,
    perdi minha avó aos dez anos de idade. Dor irreparável: ela me educou para a vida e, até hoje, sinto uma saudade ilimitada. Nunca termina.
    Mas ela também ainda está pela casa – e em muitos dos meus objetos. Em páginas de livro principalmente.
    Um beijo enorme, se cuida.

  10. Faço a mesma pergunta sobre a minha vó todos os dias: de onde vem tanta força? Espero que tenhamos no mínimo metade da força de nossas vós pra lidar com a dor.

    beijos ❤

  11. Que texto lindo. Emocionante, sincero, simples… Maravilhoso. Sua vó deve estar orgulhosa de você por ele. Sei como é difícil quando as pessoas que a gente ama vão embora, mas a gente supera, transforma em energia positiva e daqui a pouco estamos nos superando e chegando em casa felizes e prontos para comunicá-los, mesmo que seja por pensamento. Tudo há de dar certo e se você precisar de alguma coisa, estamos aqui. Abraços, Mayra.

  12. Que texto lindo, incrível! *_* Um dia desses, uma amiga escreveu um texto para a avó dela também. Sei que aonde estiver ela está orgulhosa de você te observando lá de cima em sua nuvenzinha.
    Quando a minha avó materna se foi, doeu muito, principalmente por não visitá-la frequentemente, mas ela sabe com toda razão que ela vive em meu coração. Sei que também é assim com vc
    Lindo, belíssimo texto, de verdade
    Grandes beijos, volte sempre =D

  13. Bonito e verdadeiro. É sempre mais bonito e verdadeiro quando escrevemos pra alguém que amamos… e transformar dor e saudade é o remédio, quando se “perde” alguém querido…

    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s