Invadida

Deixa eu falar… já disse que não gosto de invasões? Pois é, não gosto. Sempre prezei pela educação, acho digno um aviso, estou chegando. Simples. Mas aí tem essa coisa de sentimento, que invade nosso peito, sufoca, e a gente vive e morre ao mesmo tempo, sensação que todos conhecem e que já cansei de falar sobre. Sentimentos não têm pernas e não pensam, portanto posso perdoá-los pela invasão. Eles só existem porque nós (n)os permitimos sentir. Só que existem pessoas. E elas não deveriam invadir.
Você me invadiu desde o primeiro dia. Desde o primeiro dia, você puto porque sua mágica com as cartas não dava certo, mexendo nervosamente na aba do seu boné, dizendo que não podia dar errado, que era pura matemática. Lógica. E eu ainda sequer havia visto seu rosto. Seu boné não deixava. Desde aquele momento em que eu estava sentada no sofá, viajando em alguma galáxia distante, no que você virou para mim e disse, com um sorriso maroto: “vamos colocar a Carol a par dessa história”. Lembro que você pronunciou meu nome ainda um pouco inseguro, sem saber se era aquele mesmo. E eu achando que você queria a outra. Por que você me olhou? por que quis se explicar? Porque desde o primeiro dia, naquele dia você não me queria. Te achei magrela e cabeçuda. Eu também não te queria, mas também não queria que você quisesse a outra que eu achava que você queria. Já era a invasão. Eu mal sabia seu nome e você já invadia. Mais alguns dias, uma festa, eu embriagada, seu cavanhaque sexy, a cantada barata, e nós lá em cima. Naquele dia eu fiquei meio com medo de te abraçar… sei lá, tinha medo de te quebrar. A história que nós conhecemos bem. Havia medo. Meu e seu. Mas você sempre invade. Dias e semanas se passam. A torre da Igreja de São Pedro, a cidade vista lá do topo. Você me beijando tão delicada e invasivamente. E, mais tarde, depois de pensarmos friamente e ir pra casa, você me invadindo inteira. Agora ele não vai mais embora. Não quero. Por favor, não vá. Em Ouro Preto, depois daquele macarrão e vinho maravilhosos, nos olhávamos e perdíamos o último ônibus para Mariana só para ter uma desculpa de passar a noite lá. Noite linda, manhã linda, café da manhã lindo. Você precisava se resolver. Viajou alguns quilômetros. E a mensagem veio. Estou livre, agora a escolha é sua. Escolhi. E aqui estou, invadida. Não vou perder meu tempo dizendo que você não tinha esse direito de me conhecer inteira, de escancarar tudo o que tenho aqui dentro só de olhar pro seu rosto. Nem adianta eu tentar me esconder, afinal você entrou tanto aqui dentro, me enxerga tanto, que às vezes me sinto virada do avesso. Tanto que a única escolha que tenho é ser eu. Nada mais do que pura, simples e totalmente eu. Só isso já é motivo para amar.
Sua namorada chata e magrela, eu.
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

12 comentários em “Invadida”

  1. Poxa, meus comentários aqui são sempre iguais. A culpa também é sua. Terminei de ler o texto e tô aqui pensando como essa história é linda…

    É tão bom lembrar do comecinho, dos detalhes. O sorriso abre no rosto e a sensação daquele dia fica no ar, e no corpo, outra vez.

    Lindo Carol!
    Um beijo.

  2. O mais bonito de sentimentos é esta contravenção que gera. É um paradoxo sublime esta sensação leve de irritação que nada mais é do que o coração expondo seu encanto por isso. Este incômodo é o que há, quando há amor, quando há sentimentos em voga. É como se irritar, por não conseguir ter raiva de alguém… Mas que mostramos o afeto assim de maneira explícita.

    Lindo mesmo!

    Beijo!

    Te cuida querida!

  3. Também detesto invasões, detesto, mas essas aí nem são invasões, são convites que a gente havia feito naquele tempo do “pra sempre, quando der, o mais breve possível, por favor, chega logo” e que, de repente, são aceitos pela pessoa ideal.

    Simples assim.

    Uma ousadia esse texto, de tão belo!

    Um beijo.

  4. o AMOR é mesmo uma invasão, porque nào nos reconhecemos, na verdade, conhecemos um eu que até então estava adormecido, é bom, mas dá medo. Medo de perder, de se perder. Não há nada de bom, que não seja arriscado.

    Bom amor e que ele dure enquanto tiver de durar, e que esse tempo seja pra sempre =D

  5. Posso ficar apaixonada pelo seu namoro? Posso, posso , posssoposssoposssoposssopossso? HAHAHAHA

    Que delícia de ler, tão leve tudo aí, tão de verdade… Suspirei largado, porque não tem enfeite é só o que é.

    😀

  6. Linda declaração de amor! Seu texto me deixou inspirada, você escreve maravilhosamente bem. Eu amei seus textos, seu canto
    Já estou te seguindo flor 😀 Beijos

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