uma carta

A,
Há tempos venho tentando te escrever. Penso em você principalmente à noite, quando estou sozinha em meu quarto, deitada e embriagada pelo sono. Você também embriaga, já te disseram? Milhares de vezes, mas nem sei se você ouve. Não importa. Talvez não ouça mesmo, e é por isso que venho tentando te escrever. Porém, em meio a todos aqueles pensamentos sentimentos entos acabo me embriagando e durmo no meio da carta mental que venho te escrevendo há tempos. Desde que nasci, talvez. Mas vamos à carta, que já está acontecendo desde o A. Tentarei não me perder tanto em sua embriaguez.
Sua primeira aparição foi…? Ah, não teve a primeira, pois você sempre esteve, mesmo que eu não te enxergasse. Ou aceitasse. Tanto faz. Mas me lembro de encontros marcantes. Eu, com meus 13 anos, e você, bem de leve. Vocezinho. Depois, aos 16. E daí pra frente, foram oito anos de turbulências aqui dentro. Você ia e voltava. Dormia e acordava. Até que te mandei embora de vez. Também houve a época em que você dormiu tão profundamente que não pude te achar. Tentei, vasculhei, e NADA. Foram alguns anos de abstinência, dormência, ausência de mim mesma. Então você acordou e veio a enxurrada. Eu mal podia respirar, sentava e chorava sozinha, pois quando você apareceu, foi parar em mares distantes. Doía, como doía não poder te viver. Doía tanto que não consegui ir atrás. Faltou coragem de te ser. Te ter. De tentar te viver. Aliás, só a ideia de tentar te viver me aterrorizava. Culpa de todos aqueles mares. Mares que se transportaram aqui pra dentro do meu peito. As turbulências foram várias, as tentativas de te assumir abertamente também. No final, tudo falhou. A, se você soubesse como doí!
Eu ainda doía quando você apareceu de novo. Devagarzinho. Sorrateiro. Matando o seu eu anterior. Em meio a olhares despretensiosos. E um cavanhaque. Cavanhaque este que vai e vem, e que agora está, mas você aparece mesmo sem ele, afinal é só uma parte de um ser todo. E você é sempre um todo, até com o que não me agrada, pois não pode ser pela metade ou só um pedacinho. Te ter em pedaços adoece. E mata. Alguns meses se passaram até que eu te assumisse. Te aceitasse vindo do outro lado. Te receber também pode ser assustador, mas dessa vez você veio calmo, sem muito alarde. E ainda assim, toma conta de cada pedacinho de meu corpo, fazendo com que eu volte atrás, e veja bem, passe por cima, esmague, estraçalhe meu orgulho.
Te odeio, mas não consigo odiar. Afinal, A, quem quer te ter, precisa ser inteiro, sem vírgula ou espaços para respirar. Amar. Amar deve ser isso.
Sua,
C.
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

15 comentários em “uma carta”

  1. Eu entendo bem o que significa querer tanto alguém a ponto de ser esse alguém antes de ser qualquer coisa parecida com nosso próprio ser.

    Texto lindo, pra ser lido num suspiro, devorado.

    Um beijo.

  2. Esse texto, ao longo das palavras lidas me fez suspirar. Aqueles suspiros de quem conhece e vive uma história como essa. Aqueles suspiros de quem de alguma forma não quer olhar de novo para uma história como essa, porque doí, sufoca e machuca.
    Adorei seu texto,
    E sim, amor é isso mesmo.
    Beijos.

  3. Amar é tanta, mas tanta coisa, que só quem ama de verdade pra compreender. Já dizia Camões, amar é simplesmente dor que desatina sem doer.
    ;**

  4. Amar tem esses altos e baixos, parece mesmo com a maré. Tem dias que dá um sabor salgado, quase amargo, na nossa vida. Mas também dá frescor…

    Linda carta!
    Um beijo

  5. Poxa, que beleza de escrito, palavras tão bem colocadas e um sentido tão claro…Parabens pelo Blog, seus textos são realmente muito bons, escreves maravilhosamente bem, tens uma sensibilidade admirável, tudo aqui me agradou, então não hesitei em me tornar seu seguidor…

    Quando puder, passa la no meu tbm e vê o que acha
    http://essenciaego.blogspot.com/

    Abraço apertado
    Té mais ;P

  6. uau, que show de carta! e parece muito com a minha história do passado com o meu namorado.
    às vezes pode parecer sorte conhecer o amor da vida cedo, mas só a separação e o mundo são capazes de nos mostrar que aqueles são mesmo o grande amor de nossas vidas.

    beijoca

  7. Que dificuldade enorme essa de amar, rejeitar, querer, desprezar, seguir. Porque tudo acontece ao mesmo tempo – e agora. E os sentimentos, sempre tão confusos…
    P.S.: Adorei o visu novo daqui.
    Beijão.

  8. As cartas sem querer sempre tem sua forma de amor. Acaba sendo poética finalizando até com alguns própositos pra saber algo sobre o amor. E pra mim é ter certeza que ele estará sempre perto. Mais ele há de inspirar também só saudade e dor, mais se ele ficar é porque é realmente nosso.

    Encantada com as doces palavras e com o blog. Concerteza voltarei sempre. Um beijo.

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