Azul

O dia estava enfumaçado. Inteiro. Desde ontem. Quinta. E um calor fora do normal. Enquanto andava na rua mais cedo, tive a impressão de estar dentro de um caldeirão, prestes a explodir. A qualquer instante. Agora chove, houve uma ventania, mas o calor continua. Eu estava murcha. Além do calor, teve toda aquela noite… e um pastel que desceu atravessado. Estava gostoso, mas sei lá… desceu errado. Ou será que não foi culpa do pastel? O calor absurdo e aquela nuvem branca eram culpa do aquecimento global… ou então algo como inversão térmica. Numa cidade pequena igual a Mariana. Veja que coisa. Mas que seja. Eu estar assim não foi bem culpa do tempo. Talvez tenha me envenenado com algo que não devia. Que não devo. Mas ainda faço. Veja você que coisa linda, dormi por umas duas horas no final da tarde de hoje… ou melhor, ontem. Já passou da meia-noite. Que seja. Vamos lá, mais uma vez. Veja você que coisa linda, dormi hoje à tarde agarrada à minha camisa de formatura da oitava série. Aquela azul com o desenho de um ET… aquela que eu te emprestei ontem. Na quinta. Ficou sexy, eu disse. É. Sexy. Nossa, estamos desenterrando uma relíquia, você disse. Não foi bem isso, mas foi algo do tipo. E também sobre quantas histórias estavam ali. Você procurou por meu nome no meio dos nomes de meus colegas antes de vestir a camisa e então disse algo sobre histórias. Eu tinha esquecido dela, que ficou jogada ali no canto, no chão. Tão abandonada, tadinha. E toda amassada. Foi então que me lembrei: ela provavelmente está com seu cheiro. Peguei a camisa amassada do chão e comecei a procurar por seu cheiro. Cheirei cada cantinho dela, até que te achei. Sorri e a segurei por um tempo contra meu rosto. Segurei forte. Tão forte que por alguns instantes pude jurar que você iria se materializar bem aqui, na minha frente. Não sei bem o porquê, mas seu cheiro ficou impregnado só em um pedacinho da camisa, ali do lado esquerdo. E aí, veja você que coisa linda, deitei e dormi abraçada com ela, só pra poder tentar ficar um pouco mais com um pouco de você.
Mas aí, meu caro, veja bem, eu não quero nem um pouco ter só um pouco de você. Te quero mais… e, principalmente, inteiro. Só assim para eu tirar essa camisa azul de cima de mim com todo esse seu cheiro naquele pedacinho ali do lado esquerdo.
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

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