Pássaro verde

Entrei do busão hoje de manhã lá em Mariana e saí procurando um lugar pra sentar… ônibus em trânsito, não vendem poltrona numerada. Você chega lá e onde estiver vazio, senta. Gosto do lado contrário do motorista. E da janela. Mas hoje estava difícil. Enquanto escolhia um outro lugar pra sentar, lá no fundo, ouço uma voz forte atrás de mim: Quer sentar aqui? Era um cara com uma blusa branca. Apesar de a poltrona ser do lado do motorista e ser no corredor, aceitei sem hesitar. Não vou dizer que foi porque o cara era irresistivelmente lindo, nem reparei nele. Só sentei. Sem nem pensar. Como se aquela fosse a última poltrona disponível no ônibus. Olhei para as poltronas do corredor, que eram do lado contrário do motorista, e quase todas estavam disponíveis. Quis mudar de lugar, mas preferi ficar quieta ali mesmo. Eu estava me sentindo estranhamente confortável. Minha colega se sentou na poltrona atrás de mim. E então o cara de branco, com voz forte, que estava com um pacote de Negresco na mão, veio me oferecer um. Não, obrigada. Eu estava com bastante fome, mas um biscoito não resolveria. Tive uma súbita vontade de pedir pelo resto do pacote todo, mas logo me lembrei que não gosto muito daquele recheio branco. Me acomodei na poltrona e a voz forte veio de novo: Você estuda aqui em Mariana? Aham. Não entendi porque estava sendo monossilábica. Ele olhou pra minha mochila e sacola: vai pra casa pro feriado? Resolvi olhar pra cara daquela voz forte com calma e levantei meus óculos de sol. Ela tinha um sorriso meio de canto, irritante. Ele era extremamente charmoso. Coloquei os óculos sobre meus olhos novamente. Me irritei com ele todo e respondi que sim, estava indo pra casa. Você é de onde? BH. Respondi sem nem olhar pro lado. É, hoje eu não estava para diálogos. Desisti. E ele também. Ficou quieto. Me lembrei daquela espinha gigante que se alojou acima dos meus lábios há uma semana, e passei minha língua sobre ela. Olhei pelo canto dos óculos para o bonitão e vi que ele me observava. Recolhi a língua. Já reparou na espinha também, capeta? Fechei os olhos e tentei adormecer. Em vão. Apesar do torpor do sono que quase me dominava, as curvas da estrada não me deixavam relaxar. Tinha medo de dormir naquele balanço todo e acordar em cima daquela blusa branca charmosa. Reparei na mão do bonitão, que estava estendida sobre sua perna cruzada masculinamente. E depois naquele tênis branco. Essa calça jeans, não sei. É meio estranha. E a mão… Você sabe onde é o hospital de Ouro Preto, que o ônibus passa em frente? Aquela voz de novo… saí repentinamente dos meus pensamentos e fui até simpática. Ah, é desse lado aqui, é grande… não tem erro. Daqui a pouco você vai ver, é bem na estrada. Foi então que pensei: mas ele já vai embora? O hospital é logo ali! Por que diabos fui tão seca? Nem tá na época da minha TPM. Poucos minutos depois o auxiliar do motorista grita lá da frente: quem é que vai descer aqui no hospital? Aquele charme todo se levanta e pede para que eu dê licença pra ele passar… joguei minhas pernas para o corredor, achando que fosse o suficiente, mas esqueci da minha mochila e sacola que estavam no chão. Ele fez um certo malabarismo pra pular tudo. Eu, a mala e a sacola. Aquele tênis branco esbarrou na minha calça. E ele nem pediu desculpas. Desceu do ônibus determinado. Minha calça é clara, meu filho! Olha só, sujou! Coloquei minhas coisas em cima da poltrona, que agora estava vazia. Me aconcheguei melhor pra ver se conseguia dormir. Agora não havia mais ninguém pra eu cair em cima. Senti um perfume bom vindo daquela poltrona… Ah! moço bonito da blusa branca, eu só queria te dizer que você, além de tudo, é cheiroso. E homem cheiroso sempre tem ponto extra comigo.

Quem não entendeu o texto anterior: foi só uma brincadeira que fiz com o ‘Auto da Índia’, de Gil Vicente. Estudei o texto na aula de Literatura Portuguesa, e como me entediei logo, comecei a escrever no meu Moleskine… e saiu aquilo.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

22 comentários em “Pássaro verde”

  1. às vezes paro pra pensar em como é estranho estar ao lado de alguém, trocar palavras, e nunca mais ver a pessoa na vida. E se pudesse ser um amor inesquecível, um bom amigo? Mas pelo menos deixou o cheiro, né? rs

    Beijoca, flor!

  2. HAHAHAHAHA!!!!
    Dou tanta risada com as coisas que você posta, Carol.
    Ai, ai. Eu também tenho meus dias monossilábicos. Acontece… mas fica esperta, porque às vezes a gente perde lances bons, agindo assim [falo por experiência hahaha].
    beijo grande

  3. Odeio muito essa parte de ter que comentar, aqui.
    Porque significa que já acabei de te ler, mesmo querendo sempre mais e mais.

    Fico esperando o teu próximo post. Sempre fico!

    Um beijo, moça.

  4. Muitas vezes, deixamos de ganhar uma nova amizade ou um novo amor por mero descuido nosso. Você não tá sozinha nessa!
    Venho lá do blog da Kamilla, minha “velha” amiga, e aproveito pra te convidar pra festa de 3 anos de nosso blog, beleza?
    Bjooo!!!

  5. kaposksposkpskosa

    homens cherosos tbm tem ponto extra comigo!
    é..pelo jeito ele quis te cantar, mas vc nem deu bola… pelo menos ele era bonitinho… ruimm é quando vem aqueles feiosos de chamando de 'gostosa' ¬¬

    gostei do texto… me diverti lendo…

    bom feriado!
    Muito chocolate!

    BjOs.

  6. Primeiro, morro de raiva quando peço licença e alguém só coloca as pernas pro lado do corredor. Geralmente acabo me batendo na pessoa. Odeio. Ele deve ter ficado bem puto contigo, hahaha.
    Homem cheiroso sempre tem ponto extra comigo também… cheiroso e charmoso então, huuum… ;D
    Perdeu, colega, perdeu.

  7. Ah, Carolda, se eu te contasse das história que já aconteceram comigo dentro desses ônibus da vida… Haha. Todavia, nunca tive a chance de ter um moço bonito, assim, dialogando. Quem sabe apareça um dia, né?

    Eu gostei do teu texto, porque me senti dentro do ônibus. Foi gostosa a a maneira como você soube levar a gente.

    Um beijo, moça.

  8. Não deixe as oportunidades passarem e não seja tão rude, rs. Conquiste sorrisos, conquiste cheiros, mesmo que sejam dos feios. HAHA
    Dê oportunidades!

    Vivi contigo.
    Beijos.

  9. Você tem uma fixação com as cores das camisas dos caras, né D. Carol?
    Sinceramente, como um homem cheiroso pode NÃO ganhar pontos? Cheiro bom é fator primordial. 😉

    Bjs e sordade.

  10. Ah, Carol, vou te dar uns safanões! Por que não deu bola pro coitado do moço? Sentar do lado de um cara charmoso, simpático e cheiroso é uma vez na vida!
    Beijos

  11. Hehe, no ônibus sempre surge boas histórias. Encontros e desencontros. Essas viagens podem proporcionar muitas aventuras, até coisas do tipo.

    Pena que as vezes não damos bolas para esses sinais. Uma boa amizade pode surgir assim? rs

    Eu não costumo puxar conversa. Tampouco gosto que comecem. Embora não são em todas as ocasiões.

    Enfim. Beijo Carólda.
    Se cuida querida.
    Feliz Páscoa.

  12. Eu tb não gosto da Negresco de recheio branco, mas eu aceitaria já que era o moço bonito, charmoso e cheiroso que estava me oferecendo! hahahaha
    Adorei seu texto.

  13. Amiga e vc perdeu o bofe?
    As vezes era médico – ae partidão!
    hahahah
    brincadeiras a parte esse texto me prendeu até o final!
    bjs
    Luize
    toxicide.org

  14. adorei o texto! você realmente escreve muuuuito bem (: Eu tambem não dispenso um homem bem cheiroso. Inclusive, quando abraço alguns amigos, o perfume costuma ficar na minha roupa. Aí eu gosto mais ainda.

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