Daquele pedaço de fita

Eu não me permiti remoer aquilo tudo por mais de dois dias. Aquela velha história de não valer a pena e desperdício de energia. Sinceramente, já é indiferente. Mas aí que ontem à noite eu estava lá na minha cama, na luta pra poder conseguir me desligar e dormir, quando resolvi olhar bem aqui pra dentro de mim. Ver o que poderia estar me tirando o sono. Então vi aquele pedaço de fita aqui dentro. Era de um roxo-quase-lilás e bem pequena… uns 5 centímetros de comprimento, talvez. Da largura não posso dizer muito, mas era levemente grossa para seus poucos centímetros de comprimento. Ela não me incomodava, na verdade. Estava ali, flutuando indiferentemente pelo meu peito, em volta do meu coração. Já não me fazia bem nem mal. Mas a gente sempre ouve dizer que coisas inúteis dentro de nós podem acabar virando alguma coisa. Me lembrei daquela infecção urinária que anda me perseguindo. A primeira dose de antibióticos não foi suficiente. Ah, mas hoje eu fui numa emergência de urologia e resolvi o caso. Uma dose um pouco mais elevada de antibiótico por mais tempo, mais um antiinflamatório aqui, hão de resolver tudo. Foi então que me concentrei e pintei a tal fita de cinza. Mas era um cinza bem sem graça, triste, aquele tom de cinza que odeio. De quase-morto. Ela continuou indiferente, porém parou de flutuar, ficou imóvel. Parou bem ali, no meu coração. Como se esperasse uma atitude minha. E aí me lembrei que coisas mortas dentro de mim poderiam vir a me envenenar num futuro próximo. Peguei uma borracha e a apaguei. Mas espere, coisas de pano não se apagam com uma borracha. Não mesmo. Enfiei a mão lá dentro e puxei a tal fita cinza-morto de uma vez só aqui pra fora. Assim ó, como se arranca um band-aid. Ah, veja só você, cheia de sentimentos mortos. Admirei aquela massa cinzenta por alguns segundos, até que a assoprei e ela se esvaiu em pó. Puf. Desapareceu. Não, eu não dormi logo em seguida. E nem fiquei mais tranquila. Afinal de contas, isso já era indiferente, ando perdendo o sono por outras coisas mais triviais. Estranhamente, comecei a sentir uma leve fraqueza. Minha pressão está baixa, pensei. Pensando bem, deve ter sido todo aquele desperdício de energia. Levantei e peguei um pacote de biscoitos dentro de uma sacola na gaveta. Assim que o puxei, os biscoitos se espalharam pela sacola. Quem foi que abriu o pacote e o guardou assim lá dentro? Que coisa. Juntei todos calmamente e os coloquei de volta no pacote. Comi alguns, até me sentir melhor. Mas comi com cuidado, sem espalhar farelos pela minha cama ou pelo chão, pois me lembrei daquela barata enorme que andou nos visitando há uns dias. Nem escovei meus dentes novamente, me deu preguiça. Só peguei um Trident de canela e o saboreei, tentando tirar aquele gosto amargo da minha boca, enquanto tinha pensamentos leves e tranquilos, que me fizeram rir e me agitaram; até que, após algumas horas, peguei no sono. E sabe, só para garantir, é melhor eu ir ali varrer o chão… tirar aquilo que se grudou embaixo de meus pés assim que levantei da cama.

Não foi assim que escrevi esse texto inicialmente. O editei algumas vezes. Achei que o original tinha ficado pesado demais; um pouco mórbido, até. E essa não era minha intenção. Talvez ainda continue mórbido, mas acho que ao adicionar alguns fatos, o texto ganhou um tom mais leve. Ou não. Que seja. Já morreu.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

21 comentários em “Daquele pedaço de fita”

  1. Adorei a metáfora da fita. Acho que todo mundo deveria tirar suas fitas cinzas como band-aid de dentro do corpo, da alma. Muita gente ia dormir muito melhor.
    beijão!

  2. Acredito que a insônia esteja sendo um problema para muitos. Talvez até não seja uma fita cinza que insiste em ficar ali, alojada sem nada fazer a espera de que a suposta dona, faça. Talvez seja algo mais no fundo, algo que ainda não soube identificar.
    É bom saber a semelhança de textos e fatos que andam ocorrendo entre nós. Gosto dessa ligação de blogs, não faz me sentir tão sozinha, rs.
    Prometo-te arrancar qualquer coisa que ainda habite esse meu coração me trazendo tanto pessimismo, rs.
    Um beijo.

  3. Minhas fitas cinzas têm sido um problema para dormir há um bom tempo.
    queria eu conseguir arrancá-las como você, com a mão. Algumas vezes já achei até ter conseguido, mas não, elas voltam sempre pra me assombrar.
    Espero conseguir ser forte o bastante para que um dia elas se vão de uma vez.
    Um beijo!

  4. Confesso que nao entendi muito bem o que vc quis dizer. Mas ficou muito bem escrito, assim como todos os outros textos de sua autoria. Parabens. E seja essa dor qual for, destrua. Assim como vc fez com a fita. xoxo

  5. Ah, li seu post e fiquei me perguntando se tenho uma fita colorida aqui dentro também…

    (www.caixinhadeopinioes.zip.net)

  6. ADOREI !
    acredito que noite passada, mergulhada nos meus pensamentos antes de dormir, eu tenha arrancado uma fita cinza de dentro de mim. quem sabe. até agora ela não voltou! acho que todos deveria tentar fazer isso alguma vez. ou sempre. 🙂

    beijos!

    Bom Carnaval !

  7. Carólda, Não acho que tenha sido um texto mórbido ou um tom pesado.

    Ficou verdadeiro. Porque certas sensações podem parecer conflitas, mas são soluções. Os diálogos internos costumam ter esse breu, por justamente ser algo conflitante, no seio de nossos temores e desejos.

    Gostei muito. Esse embate dentro´de nós parece tenso, mas ajuda a respondermos muitas coisas.

    Adorei mesmo.

    Beijão.
    E bom feriadão de Carnaval pra tu.
    Muita folia e diversão. Se não for disso, muita tranquilidade, paz e harmonia.

    =)

  8. Vi cenas, senti gostos e não quis que acabasse mais. Isso é arte, tua.

    Ainda que eu tenha fitas cinzentas aqui dentro, falta coragem pra tirá-las, algumas vezes. Percebi em você, o oposto. Te admirei, então. E quis ser assim!

    Um beijo, Carolda.

  9. Pois é. O que existe dentro de nós sem função decente não pode fazer bem, né? Veja mesmo o apêndice!

    Texto maravilhoso, mórbido ou não, darling. Bem no seu estilo. Sabe, eu jamais confundiria um texto seu com o de ninguém, tenho praticamente certeza!

    Bjs.

  10. Carolda,

    Teu texto me trouxe alívio, foi isso. A tua descrição da decisão de dar adeus ao que não funciona mais como algo que fazia bem, foi sensacional. E quase indolor. Tem coisas que vão embora, e a depender da cor, não fica nenhum rascunho.

    E eu amo trident de canela, tô sempre com um. Rs.

    Beijo, moça.

  11. Nossa, eu VI-A-JO antes de dormir, quando ainda estou bem acordado. Sonho, fico triste, alegre, esperançoso…Esse momento é bem importante, acho eu, e é quando nós paramos pra dar atenção aos nossos sentimentos. E isso é importante.

  12. Carolllll!!!!!
    Achei seu texto belíssimo!!!
    Primeiro, muito sensível e perspicaz a metáfora da fita. Não é fácil fazer uma metáfora com alguma coisa que está dentro do SEU coração e não do outro. EScrever sobre os outros é mais fácil! Adorei seu texto de verdade, porque ao mesmo tempo em que vc escreveu sobre você, bate um cheirinho de literatura, um gosto de texto literário, sobre outra pessoa que não a Carol. E saber fazer isso (eu acho) é uma arte! 🙂
    Me lembrou os textos da Clarah Averbuck, que tem um blog por aí mas eu não lembro mais qual é. Particularmente, prefiro mais o seu.
    beijo grande!

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