Escuridão

Estava tudo escuro. Eu estava deitada de barriga pra cima. Solto um gritinho baixo e bato com as duas maõs no lençol que estava sobre a minha cabeça. Escuro.
– Carol?
Me mexo na cama e vejo que acordei. Estou calma.
– Carol, o que aconteceu?
Não faço ideia. Não sei se foi um pesadelo ou sei lá; foi o que respondi ainda entorpecida pelo sono, sem entender muito bem o que aconteceu.
– Foi pesadelo sim, certeza. Você tá bem?
Tô sim. Estou calma; acendo a luz do abajur pra me orientar melhor. Estou no sítio e ainda estamos no meio da madrugada. Desligo a luz e o quarto é tomado outra vez pela escuridão total. Aquela do tipo que só acontece no sítio: nos primeiros segundos você não enxerga um palmo na frente do nariz, e logo depois já enxerga a forma das coisas. Deito minha cabeça no travesseiro e sinto minhas pálpebras pesadas pelo sono que quase me domina novamente. Foi então que uma sensação estranha começou a me dominar. Comecei a suar, mas era o calor. Empurrei o edredom e fiquei só com o lençol. A sensação ficou mais intensa. Eu tentava me lembrar o que poderia ter me assustado ao ponto de me fazer ter aquela reação, mas tudo que eu me lembrava era a escuridão total. Meu coração disparou. Eu estava com medo. Não queria mais me lembrar do pesadelo. Bloqueei qualquer tipo de pensamento que pudesse me fazer lembrar. Foi uma luta ferrenha. Eu sentia que várias cenas ruins tentavam dominar minha mente, mas eu lutava contra todas elas. Acendi o abajur novamente. Olhei em volta. Nada.
– Você vai ler?
Não, vou ali no banheiro. Levanto, pego uma toalha e coloco em cima do abajur, tampando a luz que batia diretamente no rosto da minha irmã. Saio do quarto apreensiva, vejo que a porta do quarto do papai está fechada; a do outro quarto logo em frente estava aberta, mas não consegui enxergar direito o que estava lá dentro. A única luz acesa na casa, fora a do abajur, era aquela em cima da pia da cozinha. Mal iluminava esta e a sala, quanto mais aquele quarto. Penso em fechar a porta, mas sigo logo para o banheiro. Empurro a porta que estava entreaberta e acendo logo a luz. Não havia nada extraordinário ali. Fiz meu xixi e voltei logo pro quarto. No caminho curto do corredor, fiquei atenta a qualquer coisa diferente que poderia aparecer ali, na minha frente. Entrei no quarto novamente e me deitei. Quando esbocei um movimento para apagar o abajur, aquela sensação voltou avassaladora. Era mesmo medo? Agonia. Deixei o abajur aceso. Vi que minha irmã estava deitada virada para a parede, e então resolvi ficar deitada naquela posição. Era bom saber que tinha mais alguém ali comigo. Mas a sensação veio novamente me atormentar. Eu sabia que havia algo de errado ali, mas não via nada. E preferi não olhar em volta. Meu medo cresceu assustadoramente. Tive vontade de me levantar e me deitar ao lado da minha irmã, segurar suas mãos. Fechei os olhos e pedi que tudo aquilo, fosse o que fosse, parasse. Fosse embora e me deixasse em paz. Não adiantou. Eu sentia que algo ruim queria se tornar claro, mas não deixava que isso acontecesse. De maneira alguma. Vai que eu vejo algo que não quero. Que nem preciso ver. Sinto que o medo está quase me dominando, mas continuo lutando. Tenho uma vontade enorme de me levantar e ir correndo pro quarto do meu pai. Me sinto como uma menininha perdida, fugindo de coisas que não pode ver. Que não estão ali. Que coisa mais estúpida, Carolina! Não tem nada aqui! Continuo deitada, mas aqueles pensamentos e aquelas coisas todas ainda estão ali, bem em cima de mim. Sem mexer minha cabeça, fecho os olhos novamente, e começo a rezar. Junto minhas mãos, assim como fazia para rezar quando pequena, e peço para que tudo vá embora. Que eu tenha sonhos belos e leves. Então sinto alívio. O medo se foi. Talvez uma leve apreensão ainda permaneça. Abro os olhos, sinto que eles estão pesados e ardendo por causa do sono. Olho mais uma vez para minha irmã e vejo que ela já adormeceu. Fecho meus olhos. Acordo algumas horas depois; já estava claro. Podia perceber pelos poucos raios de luz que entravam pela janela. Ainda era cedo. Apaguei o abajur e voltei a dormir. Acordei com meu pai dizendo que já eram 11h da manhã. Não me lembrava do que tinha sonhado. Nem do pesadelo, nem depois disso. E isso acontece rarissimamente. Sempre me lembro de detalhes, ou fragmentos que sejam. Mas então me lembro que costumo deletar coisas ruins. Ou pesadas demais.

Texto bem grande, eu sei. Escrevi sem parar no meu Moleskine ontem à noite, até minha mão doer. Só sei que uma sensação estranha passou por mim enquanto escrevia sobre isso. Na verdade, ainda há uma certa angústia aqui dentro. Talvez tudo isso seja porque dormi duas noites sem sonhos. Para mim, que tenho sonhos bem lúcidos quase sempre, noites sem sonhos são vazias. Como se não existissem. E sequer houveram fragmentos de sonhos. Só escuridão.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

9 comentários em “Escuridão”

  1. Eu ja passei por isso, e a sensaçao é pessima. Talvez por termos a ilusao, de que so dormimos mesmo quando conseguimos sonhar, mas sabemos q nao é bem assim.

  2. Noite sem sonho? Ah, é melhor do que pesadelo e angústia, vai! Eu só tenho sonho maluco…E muita insônia, então vivo andando na escuridão pelas madrugadas hehehe

    (www.caixinhadeopinioes.zip.net)

  3. O seu texto inteiro eu senti medo por você. Eu as vezes tenho essas sensações… Mas normalmente quando fico sonambula é que no outro dia vai acontecer alguma coisa que vai me deixar com medo ou apreensiva. Graças, que há muito tempo que isso não acontece comigo!

  4. Eu odeio quando não me lembro o que eu sonhei. Sempre sonho alguma coisa, nem que seja ruim. Eu preciso me lembrar se não, é como se faltasse alguma coisa em mim.

  5. Carol, seu texto trouxe essa apreensão para mim, esse suspense. Olhe pelo lado bom significa que você consegue construir uma idéia de suspense bem demais.
    Eu odeio essa sensação de coisa ruim, principalmente a noite. Eu raramente tenho, mas quando tenho, é bem ruim. A última vez foi depois que assisti Atividade Paranormal, não era medo, não era por causa do filme, mas era uma coisa ruim. Apaguei as luzes quando já estava caída de sono, e ainda assim, passei a noite com a cara enfiada no travesseiro.
    Beijos

  6. Não gosto de escuridão. Ela dá mesmo certa apreensão. A ausência da luz nos remete a um vazio enorme. Não é o que pode vir do escuro, mas o que não existe quando não há luz. A falta. O oco…

    Dá medo, certo receio.

    Prefiro a Luz. Os olhos ficam mais À vontade.

    Belo texto.

    Beijos

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