Inha

Escrito numa noite entediada de sábado. Especificamente, dia 7 de novembro deste ano.

Tenho fome, mas não sei o que quero comer. Essa luz da sala não é muito boa. Calor. Dá preguiça de comer. Iracema está me olhando ali. É, aquela mesma. A virgem dos lábios cor de mel. José de Alencar que me desculpe, mas não vou continuar lendo essa coisa agora. Não mesmo. É muita rebuscagem em um livro só.
Rebuscagem. Essa palavra existe? Que seja. Não importa.

Lá vem aquela tristezinha de novo. Ela sobe lá do meu estômago e chega no meu peito. Não é fome, veja bem. É tristezinha. Um vazio que acaba não se preenchendo. Aliás, como se preenche um vazio desse tipo? Ele é existencial? Quase. É sim. Matar a fome é fácil. É só comer alguma coisa. Mas essa minha fome não morre fácil. É fome de vida. De sentir. Viver mesmo. Até a última gota. Ser eu, até meu último fio de cabelo. Mas aí dói. Deve ser a tal da tristezinha. Pior que ela é tão inha que nem vale a pena chorar. Lágrimas não aliviam essa tal de inha. Irritante. E eu ainda nem chorei. Nem vou chorar. Não quero. Damien? Não. Não quero fossa. Jeff Buckley, pega essa sua voz diliça e vem cá! Aliás, eu agradeceria se esse mal contato acabasse de uma vez. Ficar segurando meu MP4 na mão é bem chato. Tá estragando a música, sabia? Ficar brigando por uma posição confortável não dá muito certo.
Eu. Pasta verde para apoiar as folhas bonitinhas. Essas decoradas com o Mickey e a Minnie, nas quais quase nunca escrevo na falta de um computador. E a pasta carregada de textos acadêmicos. Alguns bons, a maioria não. Posição. Meio inclinada, jogada no sofá-cama duro que, aliás, é a minha cama desde o início desse semestre. Meio que me apaguei a essa coisa aqui. Calor. Eu. Que feio, menina. De vestido, uma das alças caída, cabelos displicentemente presos. Sente-se como uma moça. Os apresentadores do Jornal Nacional, que hoje não são Fátima Bernardes e William-charme-Bonner, não querem ver sua calcinha. De que importa? Eles nem estão me enxergando de lá. E eu aqui. Um cara pirou e abriu fogo contra vários militares desarmados. Que coisa. Escorrego um pouco mais no sofá; minha bunda está começando a ficar dormente. Mas que diabos? Nos intervalos das músicas só ouço notícias de que alguém morreu. Ei, existe vida aqui!
Sandra Annenberg, querida, diga que a culpa é do mal contato. É sempre o maldito mal contato. Até perdi a vontade de comer. É tal da inha. Minha bunda dormiu de vez. E a fome, a tristezinha, a tal inha-qualquer-coisa continua aqui. Viu só? Mal contato… inha. Sempre a inha.

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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

6 comentários em “Inha”

  1. Fome de vida, é bem isso que eu estou sentindo. Sabe, às vezes eu desejo profundamente não sentir mais nada, mas ao mesmo tempo vem aquela necessidade de sentir, mas sentir sendo correspondida, não só de sentir e pronto. Dá pra entender? Eu não consigo.
    Eu prefiro nem ver jornal se é pra ver só um monte de desgraça.

  2. E teve gnt q ainda nao entendeu o inha?! MEU DEUS heim? mas claro q isso q vc escreveu impossivel ¬¬'
    Ela me acompanha, me faz perder a fome, a liberdade, tudo :S

  3. Enquanto lia seu texto (que está muito bom e bem descritivo), fiquei aqui só imaginando sua situação aí.

    Esse seu jeito irônico-engraçado de escrever é bem legal…

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