(In)quietação

Acabo de voltar do banheiro. A luz de lá queimou e meu pai colocou um abajur pra quebrar o galho… no meio da escuridão desse mato que nos cerca, aquela luz saindo de dentro da concha apenas deixou o banheiro numa penumbra triste e amarelada. Senti medo num primeiro momento, mas não de algo sobrenatural, e sim de que algum morcego entrasse pela janela que estava aberta; e que é muito alta pra eu fechar. Meu pai já está dormindo e não vou incomodá-lo com isso. Aliás, hoje ele estava mais preocupado do que o normal em me agradar. Estávamos assistindo Caminho das Índias ali na sala e comentei que estava sem sono. Ele disse que depois da novela poderíamos assistir a um filme… concordei. Pouco tempo depois disso ele adormeceu ali mesmo, sentado na cadeira, sem que eu percebesse. A novela acabou e o vi dormindo e disse pra irmos deitar. Não, vamos assistir o filme! Você não tá sem sono? Deixa, pai… me dá seu notebook e fico na internet até que eu tenha sono. Chego no quarto e até minha cama meu pai tinha deixado pronta. E aqui estou digitando estas palavras.
Estou na paz do sítio, ouço apenas grilos e meus dedos digitando este texto. Pra combinar com essa paz, coloco Nick Drake pra tocar bem baixinho. Está tudo numa paz enorme, mas aqui dentro nada está calmo. Minha respiração está acelerada, assim como meu coração. Há algo de errado aqui. E este algo sou eu.
Eu quero e não quero. Posso e não posso. Só sei que devo. E que dói. Sabe, dói ser assim. Eu. Ser eu dói. Às vezes fica difícil respirar, tudo em volta de mim se torna pesado… aquelas toalhas dependuradas, o edredom que me cobre, até o ar que respiro é pesado. Queria saber ser mais leve… a vida é tão leve, por que diabos eu sempre tenho de torná-la tão pesada? Eu tenho medo de voar. Me deram asas… brancas, belas e enormes, do tamanho de meus sonhos; mas é só eu começar a voar um pouco mais alto que logo jogo minha âncora pra me trazer de volta ao chão. O meu medo de me esborrachar e me quebrar inteira é enorme. Meus sonhos são do tamanho do mundo, logo minhas quedas também serão. Ou não. Às vezes eu gosto de pensar que existe alguém aí que vai me lembrar de quem eu realmente sou; e que posso ser o que quero sem medo das quedas e obstáculos em meu caminho. Alguém que vai me pegar, me jogar na parede e me chamar assim, com todas as letras, de… Carolina.

This is tearing me apart
If the sun won’t shine
Forever will never be fine
Underneath the hollow ground
Lies a night time sky
For only a desperate eye
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Autor: Carolda

Carolina. Canhota, 32, já vivi outras vidas em castelos.

14 comentários em “(In)quietação”

  1. “Queria saber ser mais leve… a vida é tão leve, por que diabos eu sempre tenho de torná-la tão pesada?”

    também gostaria de saber flor, tudo é tão simples e ao mesmo tempo tão complicado…!
    ^^

  2. É, somos duas.
    Não sei por que diabos eu tenho que ser assim tão complexa, e tudo assim tão difícil, quando a vida poderia ser fácil, leve.
    Não me permito muito, já quebrei muito a cara, e cada passo pra frente, é um que terei que voltar se pegar o caminho errado, e assim ando sempre o mínimo possível.
    Ás vezes queria ser dessas pessoas impulsivas, que vivem suas vidas, pois fazem as coisas sem pensar.
    Queria ser dessas que ficam rindo o dia inteiro, sem nem saber porque.
    Mas vá lá, não sou assim, agora é ir aprendendo a conviver.
    Me identifiquei um monte!
    beeeijo!

  3. Sabe Carol, toda vez que vejo um texto seu assim, fico daqui torcendo para essa dor passar e você poder se sentir um pouco melhor e mais feliz.
    Com certeza a vida não é fácil e tem horas que parece que tudo está mais difícil e mais pesado. Mas a gente tem forças para enfrentar. 🙂
    Bjitos!

  4. Sei exatamente o que é ter asas e não usá-las. Que coisa, por que será que a gente não consegue simplesmente voar? Me pego muitas vezes pensando nisso. Quem sabe um dia, né?

    Beijo.

  5. Oi flor!
    Estou aqui para divulgar meu bazar, o Estilo Bazar, sou nova aqui nos blogs.
    Dá uma passadinha lá para ajudar e dar uma olhadinha (vai que você se interessa por algo, né?).
    ah, e ainda tenho muuuitas coisas para postar, então as atualizações serão bem frequentes 😉
    se puder linkar, me avise para eu poder retribuir!
    beijão e muito obrigada!
    (se já te mandei esse comentário, por favor me desculpe)

    http://estilo-bazar.blogspot.com/

  6. “. Alguém que vai me pegar, me jogar na parede e me chamar assim, com todas as letras, de… Carolina.”

    Juro, pensei que no fim fosses brincar e dizer: ” e me chamar assim, com todas as letras, de… lagartixa.”.

    ~

    falta um pedaço aí, né?

  7. Quem me dera ter âncora, voei alto e queimei no olho do meu sol. Não me arrependo, mas estou receosa.
    Não se sinta pesada. Respire, feche os olhos. Vai dar tudo certo.
    Beijones :*

  8. “Há algo de errado aqui. E este algo sou eu.
    Eu quero e não quero. Posso e não posso. Só sei que devo. E que dói. Sabe, dói ser assim. Eu. Ser eu dói.”

    Mais um texto seu em que me identifiquei bastante, flor. O trecho acima traduz o que eu já senti várias vezes. Sabe aquela sensação que vem sem avisar e inunda todo o nosso ser, aquela de que algo esta fora do lugar e por mais que procuremos, não encontramos. Por várias vezes nos sentimos perdidas, e achando que há algo errado com a gente. Mais respire, que isso é só confusão da nossa cabeça. Mesmo que a respiração se torne difícil, não desista de vivê-la, não desista de viver com todas as letras. Voe alto, guarde os medos em uma caixa e coloque-a dentro do armário, faça o que der na telha, seja você! Quando eu tive a minha primeira grande decepção, eu fiquei retraída com medo de aquilo acontecer de novo, de quebrar a cara novamente, mais só aí eu entendi que foi quebrando a cara que eu passei a não cometer os mesmos erros, e que eu devia me arriscar tantas outras vezes. Você vai perceber com o passar do tempo que ser você é muito bom e não dói nadinha! Só quando você se libertar dessa âncora e passar a voar bem alto, é que lá em cima, iluminada por esse céu azul você vai encontrar alguém que estava procurando por você esse tempo todo.
    Ele vai te olhar, segurar suas mãos bem forte, abrir aquele sorriso bem lindo e dizer:
    – Eu sabia que você conseguiria voar ao meu encontro, CAROLINA!

  9. Carol,

    Eu me vi, te vendo. Até pela ambientação da narração, sabe? E lembrei também de quando eu quase deixei minhas asas atrofiarem, por motivos que nem sei. Mas, principalmente, por medo.

    Então, moça, ganha o céu. Eu prometo te encontrar por lá, e não te deixo cair. E se por acaso despencar, tudo costura, bonecas de pano que sabemos ser, nessas horas. Só não perde o bom. Vai passarinhar!

    Um beijo.

  10. “. Alguém que vai me pegar, me jogar na parede e me chamar assim, com todas as letras, de… Carolina.” Adorei.
    E talvez seja esse alguém que vai te dar a leveza que tu tanto precisa, Carol. Ou melhor, alguém que vai te ensinar a ser leve.
    beijos

  11. “O meu medo de me esborrachar e me quebrar inteira é enorme” -> compreendo perfeitamente!

    (www.pollyok2.zip.net)

  12. É tão bom ler o texto e entender alguma coisa =)
    Carol, eu sei como vc se sente pq eu me sinto exatamente sem tirar nem por, assim. Só que em qualquer eu sinto. Eu sou o problema, eu odeio ser assim, mas quero que todos entendam…
    não sei se viajei mas seu texto (novamente gata!) mexeu horrores cmg. Salvei no pc.
    beijos
    http://www.toxicide.org
    Luize

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